Aquilo que minha irmã me despertou
28 Jun 2010 4 Comentários
in variados Etiquetas:Família, Infância, Irmã, Memória, Vidas
Vidas Espalhadas
Ontem minha irmã veio dizer que nossas vidas estão espalhadas.
Verdade firmada.
São frações de nós mesmos deixadas em cada canto, pedaço.
Em cidades, famílias, bairros, apartamentos, casas, estados e caixas.
A notícia veio como uma fagulha que queima e inquieta.
Na penúltima mudança uma caixa foi abandonada.
Na verdade guardada, esquecida e agora lembrada.
Engraçado que dias antes eu havia me perguntado.
Gostaria de rever aquelas fotografias de minha infância.
Risonho intuito.
A caixa foi tomada por ratos.
De Dyonélio a Cortázar.
Excrementos e ovos de outros insetos, iguais à vida,
espalhados. . .
Como podem?
Tenho medo de perguntar se isso tudo foi jogado fora.
Ouvi dizer que fotos são lavadas assim como as roupas mais sujas.
Confesso que isto muito me incomoda.
Acho que o destino privou essas lembranças de sua matéria.
Decompostas e reconstruídas apenas em memória.
Minha, de minha irmã e dos meus próximos mais próximos.
Ela que por um instante passou
23 Jun 2010 2 Comentários
in poema Etiquetas:Ela, Família, Mulata, poema, Trabalho
Rotina cantada
Ela vestiu a pele na cor de sua roupa.
Calçou o dia com o pouco orgulho que restava.
Cruzou a passarela de cimento com os pés descalços.
Amor mulato à família e o fardo levado nas canelas.
Lembrar das panelas como resultado do seu maior esforço.
A felicidade farta dividida na satisfação dos seus e dos outros.
E o que sobra é o suor na testa compartilhado através do grito.
Àqueles com quem convive e revive a própria rotina encantada.
Em movimento, vejo esta cena no recorte de uma janela.
Uma vida que nada sei e apenas invento, acrescento.
Uma história que se desenrola em meu simples conforto.
Distante daquela que conheço e desconheço em palavras.
Palavras do Saudosista
03 Set 2009 Deixe um Comentário
in quase poema quase prosa Etiquetas:Casa, Família, Infância, Irmãos, Prosa, Saudade
Volta à Casa
Ela subia a ladeira de ladrilhos ladeados.
Forte, segurava duas sacolas de compras,
que marcavam a pele e fadigavam os punhos.
Era o mercado para a semana inteira durar.
Os bolsos vazios lamentavam as últimas moedas gastas.
O menino vinha logo atrás, chutando pedrinhas a esmo.
Carregava uma sacola de peso leve, era o que podia ajudar.
A menina fazia bico e caminhava preguiçosa,
seus braços cruzados, manhosa e birrenta.
Não ganhara o doce que tanto pedira e por isso amargurava.
O menino olhava para trás e escondido gargalhava zombeteiro.
A menina, ainda mais irritada, começava a gritar:
o nome da mãe, o nome do irmão, sua irritação.
A mãe, muito nervosa, respirava a sobra da força que tinha.
Lamentava! A menina calava e o menino escondia a face.
O restante era a caminhada silenciosa e a distância curta.
Logo encontrariam uma rampa, um portão, duas escadas e uma porta.
O barulho registrava a batida na madeira e o giro da tranca.
No andar acima, as crianças guerreavam quem seria o primeiro.
Não importava o destino, a motivação era o prazer da disputa.
A mãe passava frente e abria a segunda porta branca.
Eram tomados pela forte luz clara
e pelo familiar aroma da casa limpa e arrumada.
Entravam felizes!
Era o lar, a família, a infância e nada além disso.




Recados no Mural