Um texto sincero

Bom dia ao porteiro

O meu primeiro bom dia vai ao porteiro.
Talvez esse seja sinal de uma rotina solitária.
Onde a primeira pessoa encontrada é o funcionário.
Hoje me questionei a respeito.
Rotina de solteiro?
Espaços vazios preenchidos por uma pessoa que mal conheço?
Mas tudo corre tão rápido.
Acho que não chega a trinta segundos.
O fato é que gosto dele.
Um senhor de idade, cabelos grisalhos e cara bem simpática.
Sei que mantém o trabalho para ajudar a família.
Foi o síndico uma vez que me disse.

Geralmente o porteiro, o Sr. Gastão…
Espera!
Abro aqui um parênteses, faltou dizer que esse é seu nome.
Nome gozado. Aumentativo de gasto.
Não. Acredito que não se deva aplicar esse adjetivo.
Melhor lembrar daquele vilão de uma história infantil.
Um desenho animado cantado.
Às vezes canto sua estrofe. Soa divertido.
Mal sabe ele disso.
Voltando. Geralmente o porteiro, o Sr. Gastão,
responde meus cumprimentos com grunhidos.
Sussurros alegres, surpresos e diferenciados.
Acho que fica alegre toda vez que me vê.
Será que sou a única pessoa a receber tão grande contentamento?
Prefiro acreditar que sim e ser especial.

O meu primeiro bom dia foi ao porteiro.
Penso em sua rotina paralisada.
No mesmo lugar todos os dias.
As mesmas pessoas indo e vindo.
Às vezes alguma novidade.
Entregas de correspondências e toc toc’s enganados.
Vizinhança chata, aos gritos, carregada de problemas.
E o pobre senhor deve escutar.
Será que ele resolve? Acredito que não.
Perdoe senhor Gastão pela conclusão pessimista.
Não quero ser indelicado.
Apenas desejo sorte de não ter que aturar tais moradores.
Após o almoço, ele desaparece.
Imagino que tenha largado seu posto, contente.
Os outros porteiros entram.
Esses são legais também, geralmente prestativos.
Mas deixemos bem claro.
Nenhum se compara ao alegre e sussurrante Sr. Gastão.

O meu primeiro bom dia irá ao porteiro.
Por que não dividir esse singelo cumprimento?
O anúncio e o desejo de um dia bom.
Hoje cedo, em meu retorno, ele me abordou.
Pediu um sapato velho.
Não para ele, mas para a caridade.
Ah! Como me sinto culpado.
Ano passado, na covardia, joguei alguns pares foras.
Talvez alguém tenha pegado, mas fico na incerteza.
Estavam velhos, rasgados, impróprios para o uso.
Não queria que ninguém passasse pelo desconforto
e pela desumanidade de usá-los.
Senti vergonha ao relembrar.
Não cogitei o conserto.
Agora confesso e que me venham as pedras.
Perdoe-me senhor Gastão.
Conheço-te tão pouco, mas sinto que merece o que há de melhor.
Sim! O senhor merece o meu melhor bom dia.

Que seja eternamente maravilhoso.

Um Pouco de Prosa

garça branca

A bicada da garça

Atemorizado na terra do nunca e o peixe vivo no bico da garça branca.
Idiota encapuzado corria pelado colina abaixo com frio no íntimo.
Queria mover-se para não mais ficar a ouvir aquele sofrido eco tolo.

Seu tolo… olo… olo… ôh…

Era a culpa feito uma vespa gorda a picar e envenenar suas entranhas.
Pobre coitado! Beliscou a morte e criou desordem com a pouca vida.

Lembrou:

“O que faz aqui?”, perguntou a rainha embevecida do alto da torre.
“De mim tenho pena!” , respondeu o jovem com a calça ainda arriada.
A chave emperrada limitou o acesso do rei apressado que secou a boca.
“À sua esquerda, a janela, melhor saída.”, ela indicou sufocando-se no lenço.
Queda feia! Quebrou um osso ou mais. Torto, cumprimentou o pedinte.
“Não me amole, não trago moedas.”, desconversou e tapou as nádegas.
“Quem esteve aqui?” , bravejou o rei com as bochechas inchadas e vermelhas.
O cheiro do ato proibido entrava em suas narinas e coçava suas gengivas.
“Nada não meu querido amado. Apenas a nova essência vinda do mercado.”
“Essência essa de muito mau gosto, atesto! Que dobrem os tributos!”

Tributos esses sentidos pelo pai do foragido que triplicou a prometida sova.
A ardência rosada nas nádegas do bobo deixou-o calado, pobre e quebrado…
Não conseguia parar de pensar na corte, no rei, na rainha e no sexo vetado.

Palavras do Saudosista

irmãos

Volta à Casa

Ela subia a ladeira de ladrilhos ladeados.
Forte, segurava duas sacolas de compras,
que marcavam a pele e fadigavam os punhos.
Era o mercado para a semana inteira durar.
Os bolsos vazios lamentavam as últimas moedas gastas.
O menino vinha logo atrás, chutando pedrinhas a esmo.
Carregava uma sacola de peso leve, era o que podia ajudar.
A menina fazia bico e caminhava preguiçosa,
seus braços cruzados, manhosa e birrenta.
Não ganhara o doce que tanto pedira e por isso amargurava.
O menino olhava para trás e escondido gargalhava zombeteiro.
A menina, ainda mais irritada, começava a gritar:
o nome da mãe, o nome do irmão, sua irritação.
A mãe, muito nervosa, respirava a sobra da força que tinha.
Lamentava! A menina calava e o menino escondia a face.
O restante era a caminhada silenciosa e a distância curta.
Logo encontrariam uma rampa, um portão, duas escadas e uma porta.
O barulho registrava a batida na madeira e o giro da tranca.
No andar acima, as crianças guerreavam quem seria o primeiro.
Não importava o destino, a motivação era o prazer da disputa.
A mãe passava frente e abria a segunda porta branca.
Eram tomados pela forte luz clara
e pelo familiar aroma da casa limpa e arrumada.
Entravam felizes!
Era o lar, a família, a infância e nada além disso.

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