Poema para o entardecer

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NANCY BRAJER

Quando as nuvens ficaram salgadas

Outro dia ouvi de uma criança que o céu é o mar e as nuvens suas ondas quebradas.

De repente, eu me vi mergulhado neste mundo invertido e de espuma salgada.

Onde os pássaros viram peixes e os aviões submarinos turbinados.

Então eu nado neste oceano de pipas coloridas e balões de hélio inflados.

E esbarro na infantil alegria de um pato voando atrás de seu cardume disciplinado.

Enquanto isso, a terra lá embaixo é um recife com estradas para peixes espadas.

Um terreno curioso onde prédios são corais e os rios suas curvas enfeitadas.

Mas também me dá vertigem, o sol tão de perto e a lua lá longe transformada.

Mudando sua forma todas as noites e deixando minha alma ainda mais apaixonada.

E quando sorrateiramente chega a escuridão, sinto-me numa caverna afundada.

Algas marinhas viram luzes pisca-pisca, arraias são bailarinas cheias de pressa.

Atrevida, uma corrente marítima me convida para uma nova vida e faz promessa.

Vida sublimada que me joga pra cima no meio de tantas emoções convergentes.

E que me dão combustível pra uma nova poesia adolescente.

Daquelas que me despertam a fantasia, o inusitado e a coragem de ser…. diferente.

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Poema para os perdidos de si

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Ilustração de Pierre Pratt

O intruso

Ele entrou por uma porta até então ignorada.
Estavam todos ali apáticos à espera do nada.
Feito uma nova luz incidente por janela quebrada,
Ele veio ativar a energia há tempos desligada.

Algumas pessoas se levantaram e caminharam intimidadas.
Ainda havia o medo e a novidade era estranha e incomodava.
O primeiro a toca-lo gritou e deixou a pele arrepiada.
Já o segundo beijou seus pés e lamentou dor enquanto chorava.

O terceiro foi interrompido antes de sua tateada.
Ele disse não querer toques, apenas olhos, ouvidos e palavras.
Além de palavras, ações para suspender a inércia acomodada.
E buscar vida onde há pouco era cinza e a coragem ausentava.

E assim como no princípio, Ele sumiu veloz numa piscada.
E todos ficaram em pé numa sensação de alma pesada.
Era doído entender o simples, a resposta curta e derramada.
Era a culpa feito agulha no peito, a vergonha espetada.

O intruso resumia a força, o desejo e a ideia motivada.
Que nada mais o impedia, exceto a vontade de cada.
Ele era o indivíduo, o coletivo, a fé resgatada.
E era tão simples…
Bastava um sopro pra deixar a esperança despertada.

Para os corações carentes de letras

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Uma estrela, ilustração de Roberto Weigand

Costurado

Eu tenho me ausentado durante este longo, longo tempo.
Seria falta de ação, dedicação ou de meu sentimento?
O fato é que não posso ignorar esta emoção toda que tenho.
E compartilhar aquilo que na mente é bagunçado e turbulento.

Peço desculpas e preparo na agulha uma nova linha de costura.
Uma linha diferenciada, ao invés de fibras, palavras apaixonadas.
Para quem sabe suturar com sílabas rimadas corações sedentos.
E assim ficar poesia, meu fragmento de alma, minha ternura, meu tormento.

Poema para as noites inspiradas

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A lua pendurada na noite fria (ilustração de Sofia Golovanova)

A amiga da lua

Esta noite ela se despediu e simplesmente foi deitar nua.
Disse, tanto faz hoje a minha companhia será a lua.
E assim ela abraçou o satélite dizendo ser só sua.
O quarto novo iluminado por uma força branca e crua.
Minguante, crescente, cheia de significados, nova e pura.
Era ela, seu coração acompanhado, pulsando forte, uma formosura.

Para ser lido numa semana cinza

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Ilustração de Roberto Weigand

Ilustração de Roberto Weigand

Poeta de frases infantis
– dois –

Há um bom tempo eu não vivia essa emoção toda.
Desacostumado hábito, eu me virei do avesso.
Desperto sentimentos puros e prossigo desatento.

Bom chorar em situações de alma.
Estou vivo, constato a infantilidade.
Devolvo sorriso às lágrimas e faço nosso momento.

Aprecio as apaixonadas atitudes.
Abraço a música e reproduzo com calma.
Tão bom deitar no colo e deixar o coração aberto.

Triste acaso, toda minha semana amanheceu cinza.
Estou longe e me belisco numa enorme vontade.
Melhor lembrar apenas as alegrias e ser eterno…