Poema daquilo que me sobra

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Tran Nguye

Quadro de Tran Nguye

Resto

Odeio esses momentos de melancolia.
Percebo-me aflito e um tanto inseguro.
Parece faltar ar no centro do peito.
De sobra me rendo à tola estripulia.
Um chocolate, um café, um soco duro.

Uma folha branca à espera do nobre feito.
Escritas e rabiscos que depois detesto.
Choros e angústias que depois desprezo.
A felicidade do que sou e daquilo que rezo.
Do meu corpo, da minha boca, do meu resto.

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Para ser lido em dias cinzas

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Deserto na paisagem cinza-azul desempenho

Deserto na paisagem cinza-azul desempenho, Salvador Dalí

Poeta de frases infantis

Tenho me emocionado por pouca coisa,
Inusitado hábito, me virei do avesso.
Desperto sentimentos puros e prossigo atento.

Bom chorar em situações simplórias.
Estou vivo, constato a infantilidade.
Devolvo sorriso às lágrimas e faço meu momento.

Aprecio as humildes atitudes.
Abraço a música e reproduzo com alma.
Bom deitar a cabeça em colo fraterno.

Triste acaso, hoje meu dia amanheceu cinza.
Estou sem graça, me belisco numa enorme vontade.
Melhor pensar em alegrias e ser eterno…

Para ficar do meu lado

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Eros e Psyche

Eros and Psyche, C. G. Kratzenstein-Stub

O lado bonito

A saudade quando chega
ocupa o lado bonito do coração.
Se dói, é porque algo de bom há ali.
A alma falece quando se fecha em vazios.
Lembranças de um tempo bom, presente.
Aproximar e aproveitar o instante,
atitudes belas, leves e merecidas.
Viver é muito saboroso quando amamos.
Para que lacrar sentimentos em caixas?
Prefiro ter chaves mestras
e abrir em momentos de faltas.
A saudade quando chega
preenche o lado bonito do peito.
Vamos flechar sonhos e viver ao lado.

Palavras do Saudosista

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irmãos

Volta à Casa

Ela subia a ladeira de ladrilhos ladeados.
Forte, segurava duas sacolas de compras,
que marcavam a pele e fadigavam os punhos.
Era o mercado para a semana inteira durar.
Os bolsos vazios lamentavam as últimas moedas gastas.
O menino vinha logo atrás, chutando pedrinhas a esmo.
Carregava uma sacola de peso leve, era o que podia ajudar.
A menina fazia bico e caminhava preguiçosa,
seus braços cruzados, manhosa e birrenta.
Não ganhara o doce que tanto pedira e por isso amargurava.
O menino olhava para trás e escondido gargalhava zombeteiro.
A menina, ainda mais irritada, começava a gritar:
o nome da mãe, o nome do irmão, sua irritação.
A mãe, muito nervosa, respirava a sobra da força que tinha.
Lamentava! A menina calava e o menino escondia a face.
O restante era a caminhada silenciosa e a distância curta.
Logo encontrariam uma rampa, um portão, duas escadas e uma porta.
O barulho registrava a batida na madeira e o giro da tranca.
No andar acima, as crianças guerreavam quem seria o primeiro.
Não importava o destino, a motivação era o prazer da disputa.
A mãe passava frente e abria a segunda porta branca.
Eram tomados pela forte luz clara
e pelo familiar aroma da casa limpa e arrumada.
Entravam felizes!
Era o lar, a família, a infância e nada além disso.