Aquilo que minha irmã me despertou

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aniversario

Recordação

Vidas Espalhadas

Ontem minha irmã veio dizer que nossas vidas estão espalhadas.
Verdade firmada.
São frações de nós mesmos deixadas em cada canto, pedaço.
Em cidades, famílias, bairros, apartamentos, casas, estados e caixas.
A notícia veio como uma fagulha que queima e inquieta.
Na penúltima mudança uma caixa foi abandonada.
Na verdade guardada, esquecida e agora lembrada.
Engraçado que dias antes eu havia me perguntado.
Gostaria de rever aquelas fotografias de minha infância.
Risonho intuito.
A caixa foi tomada por ratos.
De Dyonélio a Cortázar.
Excrementos e ovos de outros insetos, iguais à vida,
espalhados. . .
Como podem?
Tenho medo de perguntar se isso tudo foi jogado fora.
Ouvi dizer que fotos são lavadas assim como as roupas mais sujas.
Confesso que isto muito me incomoda.
Acho que o destino privou essas lembranças de sua matéria.
Decompostas e reconstruídas apenas em memória.
Minha, de minha irmã e dos meus próximos mais próximos.

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Ela que por um instante passou

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Mulata, Di Cavalcanti

Quadro "Mulata", Di Cavalcanti

Rotina cantada

Ela vestiu a pele na cor de sua roupa.
Calçou o dia com o pouco orgulho que restava.
Cruzou a passarela de cimento com os pés descalços.
Amor mulato à família e o fardo levado nas canelas.

Lembrar das panelas como resultado do seu maior esforço.
A felicidade farta dividida na satisfação dos seus e dos outros.
E o que sobra é o suor na testa compartilhado através do grito.
Àqueles com quem convive e revive a própria rotina encantada.

Em movimento, vejo esta cena no recorte de uma janela.
Uma vida que nada sei e apenas invento, acrescento.
Uma história que se desenrola em meu simples conforto.
Distante daquela que conheço e desconheço em palavras.