Poema para ser lido enquanto se dá uma volta

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say-ah

Recorte de "Say-ah", de Jason Jägel

Sobre o poeta que lembrou de exclamar
ou
O poema que cresceu manco

Ah! O perfume do café…
Que fissura essa na sala de espera!
Mas estou fora do contexto, este pretexto
é fazer comédia e saltar o gosto, bom.
Sou poeta pequeno do signo de ar.

Sou também cria e agora pretérito.
Que se encontra sobre o quebra mola.
E, na farra, usa no começo e prossegue,
aos tropeços, até encontrar no fim do
seu manco poema, aquele tal do “Ah”!

O conto da casinha dos fundos

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House Reflection Optical Illusion

House Reflection Optical Illusion

 

A companheira da noite


As duas garotas deixaram a sede da fazendola em direção à casinha que ficava nos fundos a uma boa distância. Uma casinha simples, de apenas um cômodo com duas camas de madeira antigas e pesadas, uma lareira e um banheiro diminuto. Pela divisão dos quartos, proposta pela senhora da casa e a mais velha do grupo, as meninas deveriam dormir na casinha, pois lá teriam mais liberdade para assuntos e assim ficariam distantes dos rapazes assanhados que eram em maior número.

A garota mais velha levava uma lamparina e era seguida pela mais nova, de estatura menor, que a segurava pelo cotovelo. Fazia frio. Pelas árvores de troncos tortuosos e folhas escuras, passava um vento gelado que soprava suas nucas e encorajava a pressa.

– Não gostei nada dessa ideia. Por que logo nós? – Reclamou a mais nova com suas pupilas bem dilatadas por causa da pouca luz.

– Vamos! Não reclame. É um quarto muito bom e não temos que discordar da senhora. – Retrucou a outra, batendo os dentes.

A pequena assentiu através de um aceno de cabeça nada convincente, enquanto a companheira puxava do bolso de sua camisola, a chave para abrir a porta da casinha. Destrancada, a porta foi empurrada em um rangido incômodo de fazer doer os ouvidos. Pequenos estalos no interior do quarto fizeram a pequenina gritar dando três pulinhos para trás, obrigando a maior a contê-la, puxando-a pelo braço.

– Shhh! Quieta! Não queremos chamar a atenção da sede. – Alardeou-se a maior.

– Eu não quero dormir aqui. – Afirmou a outra sem negar as lágrimas que agora marcavam suas bochechas. – Você ouviu os estalos? Tem bichos aqui, sei que tem. Foram eles.

– Não tem bicho nenhum. Deixa de ser boba. Quer ver?

Sem mesmo esperar pela resposta, a maior esticou o braço esquerdo com a lamparina para o interior do cômodo. Realmente não havia nada ali que seus olhos pudessem condenar como uma ameaça. Apenas um quarto pequeno, com duas camas bem arrumadas, uma porta fechada para o banheiro e uma janela com sua cortina de tecido cru batendo contra a parede devido às lufadas do vento.

Quando a maior entrou, a menor correu para uma das camas e se sentou. Em nenhum momento desgrudou os olhos da maior que cuidou de acender a lareira e apagar a lamparina a fim de economizar o querosene.

– Melhor fecharmos a janela, senão essa chama não irá durar muito. – Concluiu a mais velha.

– Acho bom… Aqui dentro tá muito frio.

Após a maior girar o trinco da janela, a cortina repousou e não mais tremulou. Por uma fresta pequena, persistiu apenas o vento através de um silvo agudo que não tranquilizou a menor.

– Não tem como fazer isso parar?

– Não, não tem. Mas não se preocupe com isso, logo você se acostuma com o barulho. Agora vamos, deite! Assim a noite passa mais rápido. – Orientou a mais velha enquanto rumava até sua cama e se sentava.

– Não quero dormir. Tô com medo. – Continuou a menor.

– Medo do quê?

– Não sei dizer… Sinto como se não tivéssemos sozinhas aqui dentro. – Prosseguiu a pequena, agora deitada com os braços cruzados sobre o peito e os olhos apontados para o teto como quem olha para o nada.

– É impressão sua. Tente dormir que esse medo acaba. – Aconselhou a maior, agora incomodada com o despertar de uma pequena ponta de medo bem no centro do peito.

– Tá! Vou tentar. – Concordou a outra, virando-se de lado e cobrindo melhor o corpo com a colcha de retalhos confeccionada pela avó.

Então, no instante em que, sem saber, as duas fecharam os olhos ao mesmo tempo, três batidas fortes no telhado fizeram as duas levantarem os ombros das camas.

– O que foi isso? – Gritou a menor com o rosto sem o seu tom rosado natural e o coração acelerado.

– Calma! Devem ter sido os galhos da árvore batendo contra o telhado por causa do vento. – Tranquilizou a mais alta, sentindo também o seu coração saltar, no momento em que novas pancadas aconteceram no teto, porém mais espaçadas. – Está vendo? É a arvore.

– Quero voltar para a sede. – Disse a pequena aos prantos.

– Não, não chore. Vai ficar tudo bem. Vamos, me dê a sua mão. – Pediu a maior esticando o braço na direção da segunda cama.

Quando a mais velha sentiu sua mão apertar a outra mão, a chama da lareira se apagou e a escuridão tomou o quarto. A pequena se amedrontou um pouco mais, mas por outro lado, sentia-se segura apertando a mão de sua companheira da noite. E nesta posição, as duas conseguiram pegar no sono, sem se preocuparem em novamente acender a lareira, deixando que apenas as colchas as escondessem do frio.

No início da manhã, as duas meninas foram despertadas pelo cacarejo do galo. O frio se dissipara e, em seu lugar, veio um calor agradável em forma de doces raios solares que invadiram o quarto pelas frestas da porta, da janela e do telhado. A mais velha sorriu para a mais nova que gargalhou, não acreditando ter sido capaz de dormir na casinha. Tomou a iniciativa e esticou o braço para tocar sua parceira, em sinal de agradecimento, e retomar a posição que a levou ao sono. A mais velha fez o mesmo. Porém, não conseguiram se tocar, nem mesmo as pontas dos seus dedos mais compridos se tatearam. As duas estavam distantes demais para possibilitar qualquer contato, ou aperto de mão. Contorceram os ossos dos dedos e, na impossibilidade do toque, se agonizaram no vazio de suas lembranças.