Poema depois da decolagem

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Foto Avião

Asa do avião. Foto minha – Instagram

Terra de inventividades

Bom dia terra das inventividades!
Os criadores e as obras imaginadas.
Modo avião acionado e a mente livre para as criancices.
Pois vem das crianças o reino dos sonhos e das artes brincadas.

Longe do mar vemos as nuvens sombreadas.
Através delas, o lindo desenho dos desejos plantados.
Sobre as nuvens, minha vontade de pisar no algodão e senti-lo.
Tentadora, essa visão rejuvenesce meu prazer táctil.

Ágil nesta imensidão completa e branca com furos azuis.
Entre elas escorregas e tobogãs de texturas.
Ternura esta aventura lançada em inalcançáveis passeios.
Viagem sem pressa no reino onde o céu é um divertido brinquedo.

Após algumas tremidas, estamos prontos para a descida.
De repente a colcha branca de retalhos licenciou o verde.
Ele um tanto quanto montanhoso e cheio de rios espelhados.
Até a luz solar revelar a terra e seus tijolos emaranhados.

Construções e engenhocas sobre o chão recortado em cinza.
Carros e mais carros a caminho do caso e do acaso.
E caso eu me situe, terei teto no estado de sotaques bagunçados.
Pois sou brasileiro em capital de santo a criar romântico e inspirado.

Poema para os vampiros de palavras

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Vincent - Tim Burton

Frame do curta de animação “Vincent” de Tim Burton (1982)

Girl and papers - Maritxell Ribas

Ilustração de Maritxell Ribas

Quando me falham as ideias
(Vampiros de palavras)

Passei cola no verso de cada folha,
a fim de pregá-las aqui do meu lado.
No meu quarto existem intrusos.
Gatunos caçadores de ideias alheias.
Feito vampiros, eles curtem mordidas.
E nos furos, sugam o sabor criativo das veias.

São invisíveis esses morcegos danados.
E gostam de nos confundir.
Estão ali, quando você nada vê.
E estão aqui, quando me faltam as palavras.
Chegam silenciosos como brisas,
mas são furacões às mentes aladas.

Contudo agora tenho as folhas coladas.
Em cada uma, as letras ilustradas.
Pois também sei trabalhar com códigos.
E assim atrapalho a ação desses gulosos.
Tenebrosos, vão se embora e eu apaziguado.
Ao menos do final deste ponto até o início dos próximos.

O conto da estrada barrenta

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A viagem de Chihiro - trem

“A viagem de Chihiro” (Sen to Chihiro no kamikakushi, dir. Hayao Miyazaki, 2001)

Alma viva

Acordou quando era hora de descer na última estação. Vestiu sua mochila azul e deixou o vagão vazio. Do lado de fora, a locomotiva de poucos vagões ainda cuspia fumaça. A estação deserta era apenas uma casinha de paredes de tinta gasta e com três cômodos apertados.  

Em uma mísera placa, o nome da cidade borrado pelos cocôs dos pombos e de outras aves negras de reputação agourenta. Dois funcionários dormiam por detrás de pequenas janelas rasgadas no tijolo. O trilho de ferro gelado acompanhava pedrinhas pontiagudas e brilhosas ao longo de uma estrada barrenta.  

A garota buscou o horizonte e encontrou o sol querendo se esconder atrás das colinas tão sombrias esta hora. Logo abaixo, o conhecido lago emendava-se em poças no gramado extenso e cheio de grilos. E em breve, a lua entraria em cena acompanhada pela escuridão enfeitada de estrelas. 

A menina não tinha pressa, mas apertou o passo assim mesmo. Seu destino ficava ao sul. Um sítio no final da estrada de terra que ali se principiava. Estrada ladeada por cercas por onde rotineiramente passavam carroças e bicicletas.  

O primeiro espírito apareceu quando ela cruzou a faixa luminosa do segundo poste enferrujado. Seu corpo branco e transparente se esmaecia conforme sua flutuação. Faltavam suas pernas. Era apenas uma alma fria e aparentemente perdida. Seus lábios tremiam. Parecia sentir sede. Muita sede. 

A garota encarou o espírito e depois fitou as pedrinhas que seus pés chutavam cada vez mais rápido. Três ratos gordos juntaram-se à madeira da cerca para observar a menina da mochila azul e sua passagem. Enquanto isso, a criatura desaparecia ao percorrer a beira da estrada sem evitar as pontas afiadas do mato alto. 

Mais à frente, dois espíritos femininos estavam paralisados sobre uma poça prateada. A menor, agarrada no pescoço da maior, tentava esconder o rosto e as lágrimas imaginadas. Formavam um corpo único, sombrio como as colinas, além de vazio e frio. As duas sumiram quando a garota da mochila procurou um desvio.  

No quinto poste, já conseguia avistar o sítio. Não quis olhar para trás e averiguar, mas sentiu que mais espíritos vieram acompanhá-la. Corujas de curiosos olhos amarelos empoleiraram sobre os arames farpados e assim como os ratos a observaram. Nove espíritos a aguardavam ao lado da porteira. Os nove anciões faziam uma guarda frágil, porém vigilante.  

Sapos e rãs somaram-se à caminhada e se aproximaram das pernas da garota para acompanhar aos saltos o seu andar. O último espírito foi o mais volumoso. Seu corpo negro como a noite era vertiginoso e infinito.  Ignorou a criatura e caminhou para alcançar o sino até segurar sua corda.  

Os espíritos companheiros interromperam qualquer tipo de movimento. Todos os animais e as almas frias a observaram sem esconder dos olhos a esperança. Então badalou uma, duas, três… 

Uma luz dourada brotou da janela maior do casebre e beijou o gramado. E como uma gota de água a tornar-se vapor, cada espírito, um a um, desapareceu. Os animais fugiram pela mata e as aves junto aos insetos ganharam os céus. Novos ruídos tomaram forma e ouviram os passos de uma pessoa que se aproximava. A anfitriã.  

“Fez boa viagem?”, perguntou a velha de lenço na cabeça. “Sim. Não poderia estar melhor acompanhada.”, respondeu a garota ao atravessar a porteira. “E você trouxe a cura?”, questionou a anfitriã que não conseguia segurar o esperado assunto. Em resposta, a garota encarou humildemente a velha e apenas sorriu. “Ela Funciona?”, insistiu a velha com os olhos marejados. “Não tenho certeza, mas podemos tentar! Onde ele está?”. “No segundo quarto sobre a cama”, indicou a velha. “E se eu disser que ele está aqui do nosso lado a nos observar?”. 

A velha levou a mão à cabeça e sentiu tontura. O novo espírito esticou os braços para segurá-la, mas foi a garota quem a abraçou e impediu a queda. “Vamos!”, disse ela. “Temos uma longa noite pela frente”.E você vai precisar de minha ajuda para alguma coisa?”, perguntou a anfitriã recuperando o equilíbrio. “Fé. Apenas isso. Só te peço um pouco de fé.” E as duas chegaram ao quarto onde o corpo estava deitado e uma alma fria as observava à espera de sua passagem.