O conto da estrada barrenta

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A viagem de Chihiro - trem

“A viagem de Chihiro” (Sen to Chihiro no kamikakushi, dir. Hayao Miyazaki, 2001)

Alma viva

Acordou quando era hora de descer na última estação. Vestiu sua mochila azul e deixou o vagão vazio. Do lado de fora, a locomotiva de poucos vagões ainda cuspia fumaça. A estação deserta era apenas uma casinha de paredes de tinta gasta e com três cômodos apertados.  

Em uma mísera placa, o nome da cidade borrado pelos cocôs dos pombos e de outras aves negras de reputação agourenta. Dois funcionários dormiam por detrás de pequenas janelas rasgadas no tijolo. O trilho de ferro gelado acompanhava pedrinhas pontiagudas e brilhosas ao longo de uma estrada barrenta.  

A garota buscou o horizonte e encontrou o sol querendo se esconder atrás das colinas tão sombrias esta hora. Logo abaixo, o conhecido lago emendava-se em poças no gramado extenso e cheio de grilos. E em breve, a lua entraria em cena acompanhada pela escuridão enfeitada de estrelas. 

A menina não tinha pressa, mas apertou o passo assim mesmo. Seu destino ficava ao sul. Um sítio no final da estrada de terra que ali se principiava. Estrada ladeada por cercas por onde rotineiramente passavam carroças e bicicletas.  

O primeiro espírito apareceu quando ela cruzou a faixa luminosa do segundo poste enferrujado. Seu corpo branco e transparente se esmaecia conforme sua flutuação. Faltavam suas pernas. Era apenas uma alma fria e aparentemente perdida. Seus lábios tremiam. Parecia sentir sede. Muita sede. 

A garota encarou o espírito e depois fitou as pedrinhas que seus pés chutavam cada vez mais rápido. Três ratos gordos juntaram-se à madeira da cerca para observar a menina da mochila azul e sua passagem. Enquanto isso, a criatura desaparecia ao percorrer a beira da estrada sem evitar as pontas afiadas do mato alto. 

Mais à frente, dois espíritos femininos estavam paralisados sobre uma poça prateada. A menor, agarrada no pescoço da maior, tentava esconder o rosto e as lágrimas imaginadas. Formavam um corpo único, sombrio como as colinas, além de vazio e frio. As duas sumiram quando a garota da mochila procurou um desvio.  

No quinto poste, já conseguia avistar o sítio. Não quis olhar para trás e averiguar, mas sentiu que mais espíritos vieram acompanhá-la. Corujas de curiosos olhos amarelos empoleiraram sobre os arames farpados e assim como os ratos a observaram. Nove espíritos a aguardavam ao lado da porteira. Os nove anciões faziam uma guarda frágil, porém vigilante.  

Sapos e rãs somaram-se à caminhada e se aproximaram das pernas da garota para acompanhar aos saltos o seu andar. O último espírito foi o mais volumoso. Seu corpo negro como a noite era vertiginoso e infinito.  Ignorou a criatura e caminhou para alcançar o sino até segurar sua corda.  

Os espíritos companheiros interromperam qualquer tipo de movimento. Todos os animais e as almas frias a observaram sem esconder dos olhos a esperança. Então badalou uma, duas, três… 

Uma luz dourada brotou da janela maior do casebre e beijou o gramado. E como uma gota de água a tornar-se vapor, cada espírito, um a um, desapareceu. Os animais fugiram pela mata e as aves junto aos insetos ganharam os céus. Novos ruídos tomaram forma e ouviram os passos de uma pessoa que se aproximava. A anfitriã.  

“Fez boa viagem?”, perguntou a velha de lenço na cabeça. “Sim. Não poderia estar melhor acompanhada.”, respondeu a garota ao atravessar a porteira. “E você trouxe a cura?”, questionou a anfitriã que não conseguia segurar o esperado assunto. Em resposta, a garota encarou humildemente a velha e apenas sorriu. “Ela Funciona?”, insistiu a velha com os olhos marejados. “Não tenho certeza, mas podemos tentar! Onde ele está?”. “No segundo quarto sobre a cama”, indicou a velha. “E se eu disser que ele está aqui do nosso lado a nos observar?”. 

A velha levou a mão à cabeça e sentiu tontura. O novo espírito esticou os braços para segurá-la, mas foi a garota quem a abraçou e impediu a queda. “Vamos!”, disse ela. “Temos uma longa noite pela frente”.E você vai precisar de minha ajuda para alguma coisa?”, perguntou a anfitriã recuperando o equilíbrio. “Fé. Apenas isso. Só te peço um pouco de fé.” E as duas chegaram ao quarto onde o corpo estava deitado e uma alma fria as observava à espera de sua passagem.

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3 thoughts on “O conto da estrada barrenta

  1. Nossa, o texto teve para mim um toque terrivelmente saudosista, muito bom te ver escrever assim, sem contar que é um belo texto, muito bom!

    Agora, confessa, vc pensava em um certo ser qdo escreveu essa frase: “…outras aves negras de reputação agourenta.”

    Parabéns! *-*

  2. samuelstrappa

    Oi Let, muito obrigado pelos elogios. Sinto-me honrado, sabe disso. E sim, lembrei-me do Draven ao descrever o corvo. Como não? Tô adorando a repercussão deste conto. Espero que mais pessoas possam lê-lo. Bjo e até mais.

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