Poema para quando houver brecha à fantasia

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Leicia Gotlibowski - Ilustrata

Ilustração de Leicia Gotlibowski

Pequena viagem de sentimentos inusitados

A mente chocalhou quando a árvore abraçou o ônibus.
Éramos passageiros engolidos por um novo mundo à parte.
Semelhante a um túnel negro cortado por luminosos pontos.
E mais focos de variadas cores chamativas e escarlates.

Impregnados neste inédito terreno de fantasia e curiosidade.
Cercados, éramos vagalumes em busca de conhecimento.
Até seres invisíveis virem na intenção de nos despir.
E de despertar nos abdômens aquela estranheza feito cócegas.

Constrangidos, preferimos retomar os conhecidos ares sérios.
Todavia perplexos neste universo de sentimentos inusitados.
Lembro-me de alguém agarrado à minha mão e de modo tímido sorrido.
Para assim respirar a emoção e, sem pressa, visitar minha libido.

Mas a derradeira luz se aproximou e estelar tomou o carro.
Fomos arremessados à avenida e novamente confundidos ao coloquial.
No meio de tanta pressa, ruído, cimento, todos isentos de argumentos.
Resignados ao simples, corriqueiro, movimentado, julgado e carnal.

Dedicado à poesia enciumada

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Amor 2 de MaRitxeLL RibaS

Amor 2, ilustração de MaRitxeLL RibaS

Música incompleta

Sou uma música incompleta.
Composta por palavras solteiras
Sem acompanhamento, arranjo ou coral.

Sou uma música rarefeita.
Isenta de ritmo, melodia e efeito.
Apenas uma vírgula à direita e um zero alheio.

Sou a música sem o intérprete.
Carente do banco e do pedestal.
Sou a fala sem o teu carisma.
Sou o silêncio em verso atonal.

Sou a música endoidecida.
Esquecida e não compartilhada.
Sou também a subestimada sinestesia.
Um diálogo quebrado, longe de ser essencial.

Mas sou poesia e defendo significados.
E aguardo leitores para completa-los.
Gosto da identificação e defendo a catarse.
Namorado do princípio e amante do emocional.