Poema para antes de o holofote cegar

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Leah Yerpe

Corpo em movimento. Arte de Leah Yerp

 

Fascinado

Seu movimento é encurvado
Forma de bicho e braço largo.
És gracioso, simples, aventurado.
Cada passo seu, um fascinado.
Tem rosto e nariz de gente.
Olhos úmidos e só sorrisos.
Tronco de molas, zero de costelas.
Vida de saltos e mais equilíbrios.
Seu trabalho é palco e coletivo.
Ritmado e em intercalados solos.
O suor por música batido.
Tem fim arte nos aplausos e grito.

Quando a Realidade beijou o Fantástico

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slawek-gruca8

Ilustração de Slawek Gruca

Os dois trabalhadores

Os dois trabalhadores equilibraram a escada.
Mais um turno de trabalho em dia operário.
Diante deles, uma estrutura metálica reta.
Mais setas no chão além de sombras e quebras.

Os dois ignorados e os velozes carros do asfalto.
Meros homens camuflados em dia agitado.
Capacetes contra a indesejável queda e morte.
De fato, preparados, equipados e uniformizados.

O primeiro a subir foi o mais experiente.
Abaixo, o novato com força nas pernas e braços.
Estabilizada a escada levava ao destino ordenado.
Uma armação complexa e de alumínio estilizado.

No topo, um furo centralizado, silencioso, surdo e cego.
O novato, cismado, para o alto pediu: desça!
Mas o primeiro avançou o braço, todo ele dentro.
Para muito além do alumínio chapado e estreito.

Corpo e mente conquistados, ele levado ao infinito.
O mais novo incrédulo com tremor nos joelhos.
Enquanto o companheiro perdido e emudecido,
cheio de prazer nos olhos, caído e estatelado.

Ao contrário do esperado, o segundo subiu.
Encantado, alcançou o destino e a cena repetida.
Tomados, no dia seguinte, o trabalho eles faltaram.
Ficou a placa metálica simbólica, majestosa e infinita.