Poema para o temporariamente impronunciável

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Ilustração de Katelin Szegedi

Ilustração de Katelin Szegedi

Ditado

O como é que se fala tá no meio da frase.
Tá no meio do verso.
Tá na estante no instante que meço.
Tá quando a pessoa sente a dúvida.
Tá onde o cego toca o incerto.
Tá onde mora o sonho.
Tá onde há a vírgula.
E também tá entre as vírgulas.
Tá entre mim e você.
É do tamanho do arranha céu,
mas ainda cabe no ventre.
Tá onde o suspiro vem.
E onde o outro entente.
É um tempero, uma nota, um verde.
Como é que se fala mesmo?
Tá no coloquial e tá no verbo.
Tá no nosso dia a dia.
Tá com você desde o feto.
Tá comigo e na mesa ao lado.
Tá na linha onde marca o metro.
E tá nos parênteses.
Tá com Deus e no adeus!
Tá na hora em que temos de partir
E como é que se fala mesmo?
Tá no ponto que breve será fim.

Havia um ponto no meio da testa

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"Broken Mirror" ilustração de Berk Osturk

“Broken Mirror” ilustração de Berk Osturk

Ode odiada acne

Uma marca vermelha no meio da testa
que me detesta e todos os dias e me atesta.
Tenho pena, dúvida e a raiva que me resta.
Esta espinha me anula e diz bobo, você não presta!

Não importa o que eu faça, esse adorno me deixa tonto.
Diante do espelho, olhos são imãs atrás do ponto.
Desesperado! Acne tola, você é tão pouco e pronto.
Que nada! Adolescente de novo em temido confronto.