Aquilo que o mar me despertou

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paisagem base preamar

Foto da paisagem da base no Joá - Rio - RJ

Maré alta

A água que vem e bate nessas pedras
é a mesma água que sacode meus sentimentos.
Feito onda gelada a quebrar na superfície escura
e gerar espuma branca que salga a nossa boca.
Salgada. Há tempos mergulhei em teu reino.
Invadi teu espaço e me perdi no breu. Sou teu.
Cego e movido pela maré de entendimentos .
Um barco a cortar a água e à procura de peixes.
Até encontrar a palavra que espero, cativo e cultivo.
Ao vento sou o pássaro que cutuca seu agito.
E vem se esconder no ninho pra pregar a sílaba.
A rima que faltava para completar o assobio
da música que nos desperta a fiel melancolia.
Ser a lágrima, o azul de nossa memória festiva.
Que quer ganhar o chão, ser doce e eterna.
Depois resgatada no peito e pendurada em cordão.
Ressentimento. Estava na fase que chamei de pré.
Minha maré… Tão mansa! Prefiro mudar o conceito.
Deixá-la alta, chama-la de preamar e, assim, de amor.

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Pequeno Universo Lembrado

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garoto na água azul

Dentro de uma gota d’água

Em uma folha de papel desenhei uma gota d’água.
Virei o pequeno lar para esquerda e a deixei deitada.
Na ponta da gota pressionei o lápis e me representei.
Com uma simples reta esbocei todo trajeto cruzado.
Sem ar, enfraquecido, estagnado na não correnteza.
Era eu com o rosto virado para o universo molhado.
Pressionei o polegar e rasurei o ponto escurecido.
Deslizei para baixo a fim de alcançar a borda seca.
Lá permaneci deitado, olhos fechados, adormecido.

O que registro são simples histórias e meras sobras.
Lembranças uma vez ou outra contadas e passadas.
Contento-me com a memória branca e interditada.
E no fim, despeço e sou levado a despertar no susto.
Em ver a folha antes lisa, agora úmida e enrugada.