Poema para os de repente incompletos

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Columpio de Luís Alves

Columpio de Luís Alves

Vazio

Por um pequeno descuido, perdi um pedacinho de mim.
Fininho feito fio de pipa a voar macio pra um lugar sem fim.
E estacionou lá longe, onde se escondeu da imaginação.
Mal sabe ele, esta intempérie fere, testa e confere o destino,
de ficar sozinho, bandido e incompleto, sem o meu carinho.

Quando quis imitar o som do coração

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Ilustração de Roberto Weigand

Ilustração de Roberto Weigand

Tum-tum

A cabeça, o coração e o impulso.
No pulso, a batida de nós dois.
Depois de nos juntar e confundir.
E rir do tempo que fizemos juntos.

Mas muito há de somar e descobrir.
Por aí somos duas coisas simples.
Simples, porque preferimos assim.
A fim de ressaltar o amor em si.

Repetir e colar o ouvido no peito.
Isto feito, ouvir tim-tim por tim-tim.
Coladinhos, passando horas assim.
O som da vida ritmado do dó ao si.

Poema para os amores separados

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Ilustração de Patrice Barton

Ilustração de Patrice Barton

Primeira despedida

Eles me disseram que você partiria na manhã seguinte.
Por que tão subitamente quiseram partir meu coração?

O nosso cantinho descolado será ocupado pelo vazio.
E o mato calado, aposto, terá saudades dos cochichos.

Segredos nossos, verdadeiros, isto espero não esqueça.
E que de vez em quando desça para me visitar e sonhar.

Descalçar os sapatos para esta grama nossa acarinhar.
E acostumados, correr para felicidade próxima alcançar.

Não queria, mas como despistar a temida despedida?
Já sinto falta dos meus dedos nos nós de seus cabelos.

E dos gritos de nossos pais e você voltando comedida.
Eu rindo bobo até dos machucados tolos dos joelhos.

Saiba que debaixo desta pedra guardei nossas iniciais.
Riscadas por chave velha em cimento sujo e confiável.

Amável será este nosso último abraço desajeitado.
E depois virão outros e mais outros de outros reencontrados…

Poema para a terra dos monstros

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"Where the Wild Things Are" de Maurice Sendak

“Where the Wild Things Are” de Maurice Sendak

Despedaçados

Tomei um barco para buscar o que havia de inquieto em mim.
Fugi de minha casa e deixei mamãe pra trás em pedacinhos.
Então naveguei por mares agitados além do conhecimento.
Até encalhar numa ilha adequada e do tamanho do intento.

Monstros de mandíbulas assustadoras vieram me arrastar.
Dentro da mata fechada, reencontrado em nenhum lugar.
Seres tão estranhos queriam nada mais que brincadeiras.
Gritavam tanto que o respeito da garganta eu fui buscar.

Surpresos, eles me jogaram para cima e azul conquistado.
Aproximado das nuvens, das luzes pra voltar passarinhado.
Mas quando sensibilidade teve chão, já não era divertido.
No lado esquerdo, veio-me a falta daquela despedaçada.

Não prolonguei a despedida, pois havia outras porções.
Coro de corações chovidos, abraços temidos e canções.
Simbólica volta para completar o espaço de minh’alma.
Compaixão sem medida, meu sentido de vida e a calma.