Poema para os amores separados

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Ilustração de Patrice Barton

Ilustração de Patrice Barton

Primeira despedida

Eles me disseram que você partiria na manhã seguinte.
Por que tão subitamente quiseram partir meu coração?

O nosso cantinho descolado será ocupado pelo vazio.
E o mato calado, aposto, terá saudades dos cochichos.

Segredos nossos, verdadeiros, isto espero não esqueça.
E que de vez em quando desça para me visitar e sonhar.

Descalçar os sapatos para esta grama nossa acarinhar.
E acostumados, correr para felicidade próxima alcançar.

Não queria, mas como despistar a temida despedida?
Já sinto falta dos meus dedos nos nós de seus cabelos.

E dos gritos de nossos pais e você voltando comedida.
Eu rindo bobo até dos machucados tolos dos joelhos.

Saiba que debaixo desta pedra guardei nossas iniciais.
Riscadas por chave velha em cimento sujo e confiável.

Amável será este nosso último abraço desajeitado.
E depois virão outros e mais outros de outros reencontrados…

Poema para quando procurar uma origem

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"El Principito" (O pequeno príncipe), ilustração de So Ri Yonn

“El Principito” (O pequeno príncipe), ilustração de So Ri Yonn

Jogo de Queixo

Quatro linhas e um jogo da velha no queixo.
Duas quedas e um poeta longe do eixo.
Criança inventiva na ardósia deixou rima.
História repetida teve prova ao olhar pra cima.

Lembranças de menino pra espantar a rotina.
E outras fantasias emotivas com formas criativas.
Promessas sobre rabiscos em pisos de giz, quis…
Tardar o crescer para o consciente ser mais feliz.

Para aqueles que nunca desistiram de sonhar

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Ilustração de Varya Kolesnikova

Ilustração de Varya Kolesnikova

Maior que um adulto

Sonhou que era maior que um adulto.
Levantou apressado e se dirigiu à mesa da cozinha.
O bom amigo peludo o esperava sonolento.
Ele ainda bocejava. Seus olhos pregados e lacrimejo.
Pode me servir um pouco de leite?
Pediu o pequeno vestido de pijama azul acordando a criatura.
Sem questionar, o monstro de pelos dourados se aprumou.
Um sorriso de dentes grandes e os olhos negros,
feito duas jabuticabas perfeitas com o brilho do orvalho.
O menino também aceita os biscoitinhos da vovó?
Ofereceu, o monstro.
Enquanto o pequeno sorria o “sim”, da janela,
um pássaro atrevido cantava umas notas.
O gato debaixo da pia correu atrás da rotina.
Sai pra lá gato! Bravejou o garoto com a boca de biscoitos.
O monstro gargalhou e melou sua barba leonina de leite adoçado.
Já organizou suas coisas da escola? Perguntou no fim.
Depois de um demorado muxoxo, o garoto regressou ao quarto.
Quando voltou uniformizado à cozinha, o pássaro desempoleirou.
O gato ronronou e depois da porta se apagou.
E o amigo na cozinha não mais se encontrava.
O cheirinho do café torrado ainda tão gostoso! Pensou.
Já está pronto, querido? Perguntou a mãe.
Seu pai te espera no carro! Ela disse ao caminhar para o quintal.
Quando a mãe deixou a cozinha, o menino olhou para os lados e abriu o armário.
Encontrou o amigo escondido no meio dos pratos.
Desculpe! Pediu o monstro num sorriso abobalhado.
Ainda não saiu, menino? Corre que seu pai tá te esperando!
Ordenou a mãe ao voltar, segurando a bacia metálica repleta de roupas.
Através de um chute, a criança fechou a porta do armário e voou.
Assim que chegou à calçada, viu o carro estacionado.
O pai com o rádio ligado cantarolava baixinho uma canção.
Impossível não se lembrar da criatura estocada no armário.
Queria dividir aquilo. Viver criança e ter sua companhia na escola.
Sorriu mais uma vez e, de repente, regressou a ideia que havia sonhado.

Poema depois da decolagem

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Foto Avião

Asa do avião. Foto minha – Instagram

Terra de inventividades

Bom dia terra das inventividades!
Os criadores e as obras imaginadas.
Modo avião acionado e a mente livre para as criancices.
Pois vem das crianças o reino dos sonhos e das artes brincadas.

Longe do mar vemos as nuvens sombreadas.
Através delas, o lindo desenho dos desejos plantados.
Sobre as nuvens, minha vontade de pisar no algodão e senti-lo.
Tentadora, essa visão rejuvenesce meu prazer táctil.

Ágil nesta imensidão completa e branca com furos azuis.
Entre elas escorregas e tobogãs de texturas.
Ternura esta aventura lançada em inalcançáveis passeios.
Viagem sem pressa no reino onde o céu é um divertido brinquedo.

Após algumas tremidas, estamos prontos para a descida.
De repente a colcha branca de retalhos licenciou o verde.
Ele um tanto quanto montanhoso e cheio de rios espelhados.
Até a luz solar revelar a terra e seus tijolos emaranhados.

Construções e engenhocas sobre o chão recortado em cinza.
Carros e mais carros a caminho do caso e do acaso.
E caso eu me situe, terei teto no estado de sotaques bagunçados.
Pois sou brasileiro em capital de santo a criar romântico e inspirado.

Saudades do tempo de planta

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Flowering Garden Vincent van Gogh

Flowering Garden Vincent van Gogh

O menino que se perdeu no jardim.

Havia um menino que queria ser planta.
Triste menino, por que somente o verde?
Queria estar grudado no que não alcança.
Ser grama e fincar os dedos na terra.
Virar semente e germinar a criança.
Fungar o cheiro da chuva e se queimar,
ao sol. Sorrir para os passarinhos.
Ficar e saber ouvi-los, seu canto.
Segurar as lágrimas e espantar a seca.
Para as flores e as formigas ser o campo.
Atrair abelhas, borboletas e minhocas.
De repente tão colorido, não só o verde.
Para longe todos os pensamentos bobocas.
Ser mato para a fantasia, para o lobo,
para os porquinhos e para a chapeuzinho.
Cá onde Alice encontrou o coelhinho.
Viver intensamente por muitos anos.
Crescer além demais da conta e rimar.
Depois subir o pé de feijão plantado.
Numa altura onde dá para se ver o mar
e correr nas nuvens até ouvir o grito.
O chamado de sua mãe para o jantar.
Já é tarde e deve ficar longe do sereno.
Lembrou-se do outro feijão da tarde.
Gostoso! Bom sentar à mesa, pequeno.
Agora, amigos, é a hora da despedida.
Até logo mais meu universo imaginado!
Mas sem pirraças e choro, combinado?
Pois amanhã, quando mamãe o acordar,
poderá viver tudo novamente, tudinho.
Ser planta, verde, colorido e mais que isso.

Poema para dançar em tempos de falta

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amores expresso montagem

Foto montagem com imagens do filme "Amores Expressos", 1994

Linha imaginada

Hoje acordei com preguiça e cocei a vista.
Uma luz atrevida brincava em meu rosto.
Cantarolava baixinho e me dizia ser dia.

Hoje acordei num desconforto meio torto.
Lembrei de ter você dormindo ao lado.
Que às vezes acordava e me sorria pouco.

Hoje acordei em lamentos nesta lembrança.
Da criança que desenha a linha e me cansa.
Linha imaginada por nós dois amargurada.

Agora deslizo no espaço vazio e me vejo tenso.
Lá se foi do meu corpo mais um fragmento.
Emoção tão latejante! Fez-me lembrar a dança.