O conto dos dois viajantes

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A companheira da estrada

Os dois viajantes cruzaram a porta do restaurante de beira de estrada. Um lugar mal conservado, acidentalmente construído no meio de uma rodovia central. O primeiro era de estatura menor e de traços bonitos. Sua barba era cheia e de um castanho claro quase dourado. Em sua juventude, possuiu um corpo atlético. Hoje, os quilos a mais na região abdominal denunciavam o trabalhador que não restringia a cerveja aos finais de semana. Seus olhos verdes despertavam interesse em inúmeras mulheres, principalmente daquelas que costumavam frequentar aquele tipo de estabelecimento. O segundo era alto e magro, com mais alguns anos de vida e de estrada em relação ao primeiro. Seu rosto era angulado, com os ossos ressaltados e os olhos negros e fundos. Seu andar era esquisito. Quando se movimentava, suas pernas pareciam querer sair do ritmo. Sua barba, assim como os cabelos, era rala e seu tom de pele era de um branco curtido de sol.

Os dois estavam de passagem. Dirigiam um caminhão de médio porte e tralhavam para uma grande empresa. Mensalmente viajavam para fazer entregas em empresas menores, de outras cidades e estados, que contavam com seu fornecimento. Saíram de sua cidade ao entardecer e iriam realizar a primeira entrega na manhã do dia seguinte. Estacionaram, pois o mais alto precisava usar o banheiro. Esse foi o motivo declarado, mas na verdade o companheiro sabia que ele queria arriscar a sorte e encontrar a moça. Aquela que ele tanto falava e cansava seus ouvidos.

— Noite! — Cumprimentou o mais alto que chegou primeiro ao balcão onde se encontrava um senhor de barba grisalha e cumprida. — A chave.

O velho nada respondeu, simplesmente esticou o braço e preguiçoso retirou o objeto solicitado. O mais alto tomou a chave como quem arranca um enfeite sem se importar com o estrago. Coçou a garganta e saiu, não sem antes fitar maliciosamente as nádegas de uma das meninas de cabelos tingidos que se inclinava no balcão para completar um pedido.

O viajante mais jovem sentou em um banco em frente ao velho e pediu um café forte com um pouco de água. Como esta noite o volante era de sua responsabilidade, preferiu beber nada alcoólico. Enquanto o velho preparava seu pedido, a moça de cabelos tingidos se aproximava na intenção de assuntos. Ela ria facilmente enquanto jogava os cabelos para trás e exibia as curvas do corpo, voluptuosa. Entretanto, antes de o assunto dos dois terminar em convites, o mais alto se aproximou e expulsou a moça do balcão, pois acabara de enxergar sua mulher desejada. “Quero que ela saiba que o viajante aqui está livre, disponível só para ela”, disse ele sacana ao amigo enquanto a outra se distanciava amargurada, proferindo algumas palavras feias.

Então, para o desassossego do mais alto, sua amada não demorou no restaurante. Entrou para pegar um cartão telefônico e saiu com pressa onde lá fora esperava o amante.

— Melhor sair dessa, parceiro. — Aconselhou rapidamente o viajante jovem após sorver o café. — Vai querer alguma coisa do bar? Se não, vamos embora! — Levantou essa condição para evitar que o amigo se estendesse em lamúrias.

— Uma branquinha. — Solicitou o mais alto constrangido.

A bebida foi servida no habitual copo diminuto e o caminhoneiro a terminou num só gole e de uma só vez. “Vamos partir!”, comandou enquanto deixava uma nota sobre o balcão, que cobria os valores de sua bebida, a do amigo e sobrava um bocado. Ele era exibido e gostava de deixar impressões de exuberância, certamente forjadas como essa, pois aquela nota era a última do bolso. Os dois saíram e seguiram até o caminhão. Primeiramente entrou o motorista, que se acomodou em sua cadeira e acertou uma medalha de santo pendurada no retrovisor interno. O companheiro, antes de subir, girou os olhos na procura de sua desejada e, na frustração, entrou no caminhão.

Ligados os motores, estavam prontos para partir. Entretanto, três batidas na porta do motorista frearam a iniciativa.

— Cuidado com ela! — Advertiu a garota, a rejeitada dos cabelos tingidos.

— Sai fora que praga de mulher pega. — Apressou o caminhoneiro mais alto e seu pedido foi acatado pelo companheiro, seguido pelo ruído exagerado dos motores.

— O que ela quis dizer? — Indagou o mais jovem no instante em que o caminhão alcançou a rodovia.

— Vai me dizer que você não sabe!

O motorista preferiu não continuar. Pelo tom preocupado do amigo, sabia que ele se referia à estória tantas vezes contada pelos caminhoneiros da estrada. A aparição de uma mulher e a consequente morte de quem a enxergasse.

— Mas é só não ter medo. — Continuou o mais alto falando consigo mesmo. — Quem tem medo, morre. Só assim. Os valentes ficam protegidos, saem ilesos.

— Você é doido. Isso sim! Acreditar numa estória dessas.

— E quem foi que disse que eu acredito? — Perguntou o mais alto, bravo, querendo colocar fim na conversa mal começada.

A estrada até a próxima cidade de destino era pouco iluminada, sinuosa e com alguns buracos. O cenário era de muitas montanhas, mato alto e placas de sinalização, em sua maioria, envelhecidas, enferrujadas e tortas. Nuvens pesadas cobriam o céu de poucas estrelas e anunciavam chuva. Os dois viajantes estavam acostumados em enfrentar trajetos complicados como esse, mas o mais alto se remexia na cadeira como há muito tempo não se mexia. O motorista preferiu ignorar essa inquietação e buscou no rádio uma estação de canções bregas e com intervalos de anúncios populares e bem humorados.

A chuva chegou acompanhada de violentos trovões quando os dois alcançaram a parte alta da estrada. Encontraram poucos carros no caminho. O último carro que cruzaram piscou os faróis em sinal de alerta. O motorista desacelerou e iniciou a curva numa velocidade cautelosa, com os olhos e ouvidos atentos. Terminada a curva, desligou o rádio que neste momento era só chiados. O maior endireitou o corpo e passou a mão sobre o vidro de sua janela para desembaçar e enxergar sua lateral. Nada de errado nos quilômetros seguintes, nada que justificasse o alerta do carro.

O motorista suspirou aliviado quando cruzaram a ponte que antecipava a entrada de um distrito. Morava naquela cidadela a possibilidade de um período de descanso até a estiagem. Então encarou o amigo que, depois do incômodo silêncio, manifestou sua vontade:

— Vamos em frente! Prefiro descansar depois que fizermos essa primeira entrega no horário previsto, como nos foi solicitado.

O motorista concordou através de um aceno de cabeça e, mesurado, manteve a velocidade baixa.

O que se sucedeu foi uma sequência agravada de curvas e de chuva volumosa e pesada. A visão da estrada continuava complicada. As palhetas do limpador de parabrisas deslizavam barulhentas sobre seus olhos. A estrada de duas pistas era revelada nos intervalos desses deslizes, iluminada somente pelos faróis do caminhão e relâmpagos que, nesta hora, estavam menos espaçados. Nas montanhas e nas margens das cercas de ferro, as sombras eram esquisitas, algumas aterradoras. Formavam desenhos de contornos irregulares que pareciam segui-los pela extensão do asfalto. Outras formas estranhas também se destacavam entre a negritude das sombras e roubavam atenção. Quando encontravam formas como essas, passavam os olhos e buscavam definições. A maioria era lixo ou arquitetura de estrada mal acabada ou abandonada.

Então uma sombra ganhou corpo e se desgrudou de uma das margens. Fugiu para o lado oposto, onde se escondeu por debaixo de galhos e matos. Um ruído agudo e semelhante a um grito feminino alcançou seus ouvidos. O motorista perdeu a direção e o caminhão fez um ziguezague pelas duas pistas até retomar seu rumo. Ambos tentaram manter a calma. O motorista resmungou “Maldito gambá!”, mesmo com a incerteza de ser aquilo o animal referido. Seu companheiro permaneceu mudo por mais alguns minutos até desabafar:

— Você ouviu o grito? Era ela!

— Acho que você está impressionado.

— Então me explica o que foi aquilo?

— Não sei. Talvez o vento, um bicho, uma sirene…

— Sirene! Aqui? Ah… Por favor!

— O que é que foi? Não foi você que me disse para ir em frente? Que temos que entregar o produto na hora certa?

E para a surpresa dos dois a chuva amansou e sobre o vidro permaneceu a queda de gotas finas e menos ruidosas. Os dois se calaram para não mais brigarem, pois essa de longe era a intenção. O viajante mais alto quietou-se na cadeira e permaneceu com os olhos virados para sua lateral. O motorista buscou no rádio uma estação e encontrou os previstos chiados e desligou. Os relâmpagos permaneceram, entretanto em intervalos maiores. Os trovões aparentavam distância. Na lateral do carona, uma placa com a indicação de curva acentuada para a esquerda. O motorista girou o volante neste sentido e no meio da curva, na margem que ladeava o viajante alto, um relâmpago revelou a forma estranha.

— Ela! — Disse o carona.

O motorista reduziu a velocidade e observou o amigo.

— Ela. — Repetiu o carona.

Um filete de sangue brotou do ouvido e escorreu pelo rosto agora pálido do viajante mais velho. O motorista ligou o pisca-alerta, freou o caminhão e estacionou na beira da estrada. Os faróis ainda ligados. Buscou um lenço de papel no porta-luvas e tentou entregá-lo. O amigo ignorou a oferta, abriu a porta e desceu. Caminhou vagaroso para a dianteira e seguiu reto com o pescoço ereto e os olhos fixos no horizonte. Mais sangue escorria em sua outra orelha. Quando atingiu um ponto onde o foco de luz era fraco, parou a caminhada e permaneceu em pé, calado. O motorista, ainda sentado, observava a cena. Foi então que no mesmo instante em que os faróis se desligaram sozinhos, o mais alto caiu, desfalecido, e bateu violentamente o rosto contra o asfalto.

O motorista tentou reacender os faróis e não conseguiu. Desceu e gritou o nome do amigo. Correu ao seu encontro. Agachou e virou o corpo estendido e desacordado. Tentou animá-lo com alguns tapas e algumas sacudidas. Buscou o pulso. Um ruído na mata desviou sua intenção. Teve a impressão de o som vir por detrás do caminhão. Levantou e rápido caminhou para a parte traseira. “Eu não te vi!”, gritou. “Eu não vi nada, nada!” , enfatizou. “Eu não tenho medo, não tenho medo, eu não vi…”, seu fôlego era pouco, sua força sem valor. Fitou o mato, sua escuridão e seu vazio. Sentiu sono e também caiu. Os faróis reacenderam. No asfalto, dois viajantes caídos, um caminhão estacionado e a não companhia. Tudo parado, menos a chuva fina. Tudo calado e mais o nada. Nada…

***

Conheça a outra companheira aqui: “O conto da casinha dos fundos”

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O conto da casinha dos fundos

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A companheira da noite


As duas garotas deixaram a sede da fazendola em direção à casinha que ficava nos fundos a uma boa distância. Uma casinha simples, de apenas um cômodo com duas camas de madeira antigas e pesadas, uma lareira e um banheiro diminuto. Pela divisão dos quartos, proposta pela senhora da casa e a mais velha do grupo, as meninas deveriam dormir na casinha, pois lá teriam mais liberdade para assuntos e assim ficariam distantes dos rapazes assanhados que eram em maior número.

A garota mais velha levava uma lamparina e era seguida pela mais nova, de estatura menor, que a segurava pelo cotovelo. Fazia frio. Pelas árvores de troncos tortuosos e folhas escuras, passava um vento gelado que soprava suas nucas e encorajava a pressa.

– Não gostei nada dessa ideia. Por que logo nós? – Reclamou a mais nova com suas pupilas bem dilatadas por causa da pouca luz.

– Vamos! Não reclame. É um quarto muito bom e não temos que discordar da senhora. – Retrucou a outra, batendo os dentes.

A pequena assentiu através de um aceno de cabeça nada convincente, enquanto a companheira puxava do bolso de sua camisola, a chave para abrir a porta da casinha. Destrancada, a porta foi empurrada em um rangido incômodo de fazer doer os ouvidos. Pequenos estalos no interior do quarto fizeram a pequenina gritar dando três pulinhos para trás, obrigando a maior a contê-la, puxando-a pelo braço.

– Shhh! Quieta! Não queremos chamar a atenção da sede. – Alardeou-se a maior.

– Eu não quero dormir aqui. – Afirmou a outra sem negar as lágrimas que agora marcavam suas bochechas. – Você ouviu os estalos? Tem bichos aqui, sei que tem. Foram eles.

– Não tem bicho nenhum. Deixa de ser boba. Quer ver?

Sem mesmo esperar pela resposta, a maior esticou o braço esquerdo com a lamparina para o interior do cômodo. Realmente não havia nada ali que seus olhos pudessem condenar como uma ameaça. Apenas um quarto pequeno, com duas camas bem arrumadas, uma porta fechada para o banheiro e uma janela com sua cortina de tecido cru batendo contra a parede devido às lufadas do vento.

Quando a maior entrou, a menor correu para uma das camas e se sentou. Em nenhum momento desgrudou os olhos da maior que cuidou de acender a lareira e apagar a lamparina a fim de economizar o querosene.

– Melhor fecharmos a janela, senão essa chama não irá durar muito. – Concluiu a mais velha.

– Acho bom… Aqui dentro tá muito frio.

Após a maior girar o trinco da janela, a cortina repousou e não mais tremulou. Por uma fresta pequena, persistiu apenas o vento através de um silvo agudo que não tranquilizou a menor.

– Não tem como fazer isso parar?

– Não, não tem. Mas não se preocupe com isso, logo você se acostuma com o barulho. Agora vamos, deite! Assim a noite passa mais rápido. – Orientou a mais velha enquanto rumava até sua cama e se sentava.

– Não quero dormir. Tô com medo. – Continuou a menor.

– Medo do quê?

– Não sei dizer… Sinto como se não tivéssemos sozinhas aqui dentro. – Prosseguiu a pequena, agora deitada com os braços cruzados sobre o peito e os olhos apontados para o teto como quem olha para o nada.

– É impressão sua. Tente dormir que esse medo acaba. – Aconselhou a maior, agora incomodada com o despertar de uma pequena ponta de medo bem no centro do peito.

– Tá! Vou tentar. – Concordou a outra, virando-se de lado e cobrindo melhor o corpo com a colcha de retalhos confeccionada pela avó.

Então, no instante em que, sem saber, as duas fecharam os olhos ao mesmo tempo, três batidas fortes no telhado fizeram as duas levantarem os ombros das camas.

– O que foi isso? – Gritou a menor com o rosto sem o seu tom rosado natural e o coração acelerado.

– Calma! Devem ter sido os galhos da árvore batendo contra o telhado por causa do vento. – Tranquilizou a mais alta, sentindo também o seu coração saltar, no momento em que novas pancadas aconteceram no teto, porém mais espaçadas. – Está vendo? É a arvore.

– Quero voltar para a sede. – Disse a pequena aos prantos.

– Não, não chore. Vai ficar tudo bem. Vamos, me dê a sua mão. – Pediu a maior esticando o braço na direção da segunda cama.

Quando a mais velha sentiu sua mão apertar a outra mão, a chama da lareira se apagou e a escuridão tomou o quarto. A pequena se amedrontou um pouco mais, mas por outro lado, sentia-se segura apertando a mão de sua companheira da noite. E nesta posição, as duas conseguiram pegar no sono, sem se preocuparem em novamente acender a lareira, deixando que apenas as colchas as escondessem do frio.

No início da manhã, as duas meninas foram despertadas pelo cacarejo do galo. O frio se dissipara e, em seu lugar, veio um calor agradável em forma de doces raios solares que invadiram o quarto pelas frestas da porta, da janela e do telhado. A mais velha sorriu para a mais nova que gargalhou, não acreditando ter sido capaz de dormir na casinha. Tomou a iniciativa e esticou o braço para tocar sua parceira, em sinal de agradecimento, e retomar a posição que a levou ao sono. A mais velha fez o mesmo. Porém, não conseguiram se tocar, nem mesmo as pontas dos seus dedos mais compridos se tatearam. As duas estavam distantes demais para possibilitar qualquer contato, ou aperto de mão. Contorceram os ossos dos dedos e, na impossibilidade do toque, se agonizaram no vazio de suas lembranças.