Poema para quando procurar uma origem

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"El Principito" (O pequeno príncipe), ilustração de So Ri Yonn

“El Principito” (O pequeno príncipe), ilustração de So Ri Yonn

Jogo de Queixo

Quatro linhas e um jogo da velha no queixo.
Duas quedas e um poeta longe do eixo.
Criança inventiva na ardósia deixou rima.
História repetida teve prova ao olhar pra cima.

Lembranças de menino pra espantar a rotina.
E outras fantasias emotivas com formas criativas.
Promessas sobre rabiscos em pisos de giz, quis…
Tardar o crescer para o consciente ser mais feliz.

Texto para se dedicar à avó

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casa avo

Ilustração de Luís Silva de “O livro da avó”

A casa incompleta

A notícia que recebi foi a de que reformaram sua casa.
Transformaram em um restaurante bem recomendado.
Casa boa! Dois andares. Vários quartos e salas amplas.
Pergunto como ela deve ter ficado e o que foi adaptado.
Quebraram as paredes da cozinha? Distribuíram mesas?
Imagino os garçons trabalhando nessa antiga morada.
A varanda do térreo como perfeita área de convivência.
Espaço para cumprimentos e playground das crianças.
Da cozinha, espero o mesmo sabor da comida e acolhida,
que tantas vezes compartilhei e agora saudoso relembro.
Mas depois veio a verdade. Não houve  reforma alguma.
Por causa da ordem médica e do apoio imediato da família,
transferiram a avó para o andar debaixo e lá a hospedaram.
Naquele quarto de visitas que quando mais novo eu dormia.
E nessa situação mudada o que é estranho e nos intriga,
à parte superior da casa ela nunca mais voltou ou perguntou.
Não mais manifestou o interesse em subir as escadas.
Visitar seu antigo quarto e caminhar pelo corredor extenso
que levava aos quartos onde dormiram o marido, os filhos,
os netos, os bisnetos, as visitas e a muito querida Chica.
A ideia da casa completa faleceu em sua memória idosa.
A antiga casa anulada para uma nova vida de lembranças.
Um tempo quando era jovem e gozava a boa saúde.
Um tempo de fantasias, infantil e belo àquela que mais ama.

Pequeno Universo Lembrado

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garoto na água azul

Dentro de uma gota d’água

Em uma folha de papel desenhei uma gota d’água.
Virei o pequeno lar para esquerda e a deixei deitada.
Na ponta da gota pressionei o lápis e me representei.
Com uma simples reta esbocei todo trajeto cruzado.
Sem ar, enfraquecido, estagnado na não correnteza.
Era eu com o rosto virado para o universo molhado.
Pressionei o polegar e rasurei o ponto escurecido.
Deslizei para baixo a fim de alcançar a borda seca.
Lá permaneci deitado, olhos fechados, adormecido.

O que registro são simples histórias e meras sobras.
Lembranças uma vez ou outra contadas e passadas.
Contento-me com a memória branca e interditada.
E no fim, despeço e sou levado a despertar no susto.
Em ver a folha antes lisa, agora úmida e enrugada.