Poema para a terra dos monstros

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"Where the Wild Things Are" de Maurice Sendak

“Where the Wild Things Are” de Maurice Sendak

Despedaçados

Tomei um barco para buscar o que havia de inquieto em mim.
Fugi de minha casa e deixei mamãe pra trás em pedacinhos.
Então naveguei por mares agitados além do conhecimento.
Até encalhar numa ilha adequada e do tamanho do intento.

Monstros de mandíbulas assustadoras vieram me arrastar.
Dentro da mata fechada, reencontrado em nenhum lugar.
Seres tão estranhos queriam nada mais que brincadeiras.
Gritavam tanto que o respeito da garganta eu fui buscar.

Surpresos, eles me jogaram para cima e azul conquistado.
Aproximado das nuvens, das luzes pra voltar passarinhado.
Mas quando sensibilidade teve chão, já não era divertido.
No lado esquerdo, veio-me a falta daquela despedaçada.

Não prolonguei a despedida, pois havia outras porções.
Coro de corações chovidos, abraços temidos e canções.
Simbólica volta para completar o espaço de minh’alma.
Compaixão sem medida, meu sentido de vida e a calma.

Poema dedicado aos amores juvenis

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Ilustração de Thai My Phuong

Ilustração de Thai My Phuong

Cartão Postal
(ou O Senhor da Saudade)

Sentia-se presa dentro de sua própria casa nos últimos meses.
Escrevendo passarinhos e sinais com polegares em redes sociais.

Sua mãe atormentava e quantas vezes intrometia, era seu espaço.
Ah mãe, me deixa um pouco, não me tente ganhar pelo cansaço!

Ele havia viajado e há quantos dias não deixava um simples recado.
O aparelho ligado, ela ia toda hora atrás de um status mudado.

Nada de novo, exceto mensagens curiosas de amigas por novidades.
Saudades! Até seu sono andava mal dormido sonhado ultimamente.

Entrementes, sua mãe invade quarto dizendo carteiro ter passado.
E o que tem a ver isso, contas e faturas não são teus cuidados?

Mas tinha um cartão postal assinado pelo senhor de toda saudade.
Ai me dê logo aqui! Você não leu nada, né? Que morro de verdade.

Uma mensagem de poucas linhas, sua letra tão feiosa, o desleixado.
Mas tão lindo por ser ele e foi calar os soluços no colo acostumado.

Duas semanas terminadas, na escadinha de sua casa ela esperava.
Ouviu o ruído da bicicleta e seu coração apertadinho desconfiava.

Aquele assovio, com certeza era ele, então se levantou desajeitada.
Folhas do outono enfeitaram o reencontro de duas almas separadas.

Nas pontas dos pés, ele um tantinho mais alto, um abraço para guardar.
Surpresa foi vê-lo chorando, provou um beijo e amou o sabor do mar.

Para lembrar minhas velhas casas

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Pintura Mercia Lara

Sem título, Mércia Lara

Vida de menino

Nada melhor que deitar em colo e receber carinho de mãe.
Sentir o cheiro do café da manhã.
Pedir bença à vovó.
Comer broa quentinha e deslizar os dedos sobre o vapor do leite.
Andar em ruas, despreocupado.
Respirar verde.
Admirar o céu azul bordado em nuvens brancas.
Ouvir música.
Escutar a bronca do pai e as dúvidas da irmã.
Partilhar gosto e experiências com a prima
Nada melhor que amar a vida e respeitar sua origem.
Ser mineiro é coisa boa.
Privilégio.
Quero eu esse respeito e jamais
nunca, em hipótese alguma
tirar isso de mim.
O prazer de ouvir, falar e ser “uai”.