Poema para os desenhados do sol

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jugar_Dima Dmitriev 7

Pescados

Conto os passos do nosso grupo ritmado.
Mais um final de cansado dia trabalhado.
Colheita pouca, longe do tanto esperado.
Na volta agulhas, redes e chorado pescado.
Nos metais, peixes de lábios machucados.
Olhos abertos e o restinho de vida salgado.
O mais alto puxa o canto acompanhado.
Preces e rimas pra Deus muito obrigado.
E atrás fica nosso rastro aprofundado.
Pegadas para o mar cobrir necessitado.
Negros contornos na areia desenhados.
Somos testemunhos de um sol apaixonado.

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Poema para a terra dos monstros

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"Where the Wild Things Are" de Maurice Sendak

“Where the Wild Things Are” de Maurice Sendak

Despedaçados

Tomei um barco para buscar o que havia de inquieto em mim.
Fugi de minha casa e deixei mamãe pra trás em pedacinhos.
Então naveguei por mares agitados além do conhecimento.
Até encalhar numa ilha adequada e do tamanho do intento.

Monstros de mandíbulas assustadoras vieram me arrastar.
Dentro da mata fechada, reencontrado em nenhum lugar.
Seres tão estranhos queriam nada mais que brincadeiras.
Gritavam tanto que o respeito da garganta eu fui buscar.

Surpresos, eles me jogaram para cima e azul conquistado.
Aproximado das nuvens, das luzes pra voltar passarinhado.
Mas quando sensibilidade teve chão, já não era divertido.
No lado esquerdo, veio-me a falta daquela despedaçada.

Não prolonguei a despedida, pois havia outras porções.
Coro de corações chovidos, abraços temidos e canções.
Simbólica volta para completar o espaço de minh’alma.
Compaixão sem medida, meu sentido de vida e a calma.

Poema dedicado aos amores juvenis

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Ilustração de Thai My Phuong

Ilustração de Thai My Phuong

Cartão Postal
(ou O Senhor da Saudade)

Sentia-se presa dentro de sua própria casa nos últimos meses.
Escrevendo passarinhos e sinais com polegares em redes sociais.

Sua mãe atormentava e quantas vezes intrometia, era seu espaço.
Ah mãe, me deixa um pouco, não me tente ganhar pelo cansaço!

Ele havia viajado e há quantos dias não deixava um simples recado.
O aparelho ligado, ela ia toda hora atrás de um status mudado.

Nada de novo, exceto mensagens curiosas de amigas por novidades.
Saudades! Até seu sono andava mal dormido sonhado ultimamente.

Entrementes, sua mãe invade quarto dizendo carteiro ter passado.
E o que tem a ver isso, contas e faturas não são teus cuidados?

Mas tinha um cartão postal assinado pelo senhor de toda saudade.
Ai me dê logo aqui! Você não leu nada, né? Que morro de verdade.

Uma mensagem de poucas linhas, sua letra tão feiosa, o desleixado.
Mas tão lindo por ser ele e foi calar os soluços no colo acostumado.

Duas semanas terminadas, na escadinha de sua casa ela esperava.
Ouviu o ruído da bicicleta e seu coração apertadinho desconfiava.

Aquele assovio, com certeza era ele, então se levantou desajeitada.
Folhas do outono enfeitaram o reencontro de duas almas separadas.

Nas pontas dos pés, ele um tantinho mais alto, um abraço para guardar.
Surpresa foi vê-lo chorando, provou um beijo e amou o sabor do mar.

Para aqueles que foram conquistados pelo céu

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Ilustração Estrelles de Murta Turan

Ilustração “Estrelles” de Murat Turan

Por ti apegado

Esta noite o céu me beijou e sussurrou ser meu par.
Desapegado, emprestou estrelas para me acompanhar.
Quebrada rotina, tenho inesperado rumo e sossego.
Areia umedecida, no pé vira cola por entre os dedos.

Tão salgado! Gelado mar vem testar meu calcanhar.
Natureza paquerada me deixa feliz este seu cheiro.
Vida longe cansativa e de perto cores para passeio.
Sensibilidade repentina tem no peito o seu lugar.

Poema depois da decolagem

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Foto Avião

Asa do avião. Foto minha – Instagram

Terra de inventividades

Bom dia terra das inventividades!
Os criadores e as obras imaginadas.
Modo avião acionado e a mente livre para as criancices.
Pois vem das crianças o reino dos sonhos e das artes brincadas.

Longe do mar vemos as nuvens sombreadas.
Através delas, o lindo desenho dos desejos plantados.
Sobre as nuvens, minha vontade de pisar no algodão e senti-lo.
Tentadora, essa visão rejuvenesce meu prazer táctil.

Ágil nesta imensidão completa e branca com furos azuis.
Entre elas escorregas e tobogãs de texturas.
Ternura esta aventura lançada em inalcançáveis passeios.
Viagem sem pressa no reino onde o céu é um divertido brinquedo.

Após algumas tremidas, estamos prontos para a descida.
De repente a colcha branca de retalhos licenciou o verde.
Ele um tanto quanto montanhoso e cheio de rios espelhados.
Até a luz solar revelar a terra e seus tijolos emaranhados.

Construções e engenhocas sobre o chão recortado em cinza.
Carros e mais carros a caminho do caso e do acaso.
E caso eu me situe, terei teto no estado de sotaques bagunçados.
Pois sou brasileiro em capital de santo a criar romântico e inspirado.

Aquilo que o mar me despertou

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paisagem base preamar

Foto da paisagem da base no Joá - Rio - RJ

Maré alta

A água que vem e bate nessas pedras
é a mesma água que sacode meus sentimentos.
Feito onda gelada a quebrar na superfície escura
e gerar espuma branca que salga a nossa boca.
Salgada. Há tempos mergulhei em teu reino.
Invadi teu espaço e me perdi no breu. Sou teu.
Cego e movido pela maré de entendimentos .
Um barco a cortar a água e à procura de peixes.
Até encontrar a palavra que espero, cativo e cultivo.
Ao vento sou o pássaro que cutuca seu agito.
E vem se esconder no ninho pra pregar a sílaba.
A rima que faltava para completar o assobio
da música que nos desperta a fiel melancolia.
Ser a lágrima, o azul de nossa memória festiva.
Que quer ganhar o chão, ser doce e eterna.
Depois resgatada no peito e pendurada em cordão.
Ressentimento. Estava na fase que chamei de pré.
Minha maré… Tão mansa! Prefiro mudar o conceito.
Deixá-la alta, chama-la de preamar e, assim, de amor.