Vertigem

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Guy-Girl-Window-Shadow
A face

A esta hora você me vem visitar.
Primeiro uma sombra desgrudada.
Depois pendurada em tijolo no ar.
Vindo quieta e infinita só pra testar.

Dobrada sua mão de unhas compridas.
Pelo parapeito feito feio por fora entrar.
Sua face em minha casa traz vertigem
Trêmulo pra cair do décimo segundo andar.

Basta um vento para assim te apagar.
Devolvê-la ao escuro da vista sem luar.
Devagar, docinho e triste testemunhar.
O medo que você me é… se afastar.

O conto da casinha dos fundos

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House Reflection Optical Illusion

House Reflection Optical Illusion

 

A companheira da noite


As duas garotas deixaram a sede da fazendola em direção à casinha que ficava nos fundos a uma boa distância. Uma casinha simples, de apenas um cômodo com duas camas de madeira antigas e pesadas, uma lareira e um banheiro diminuto. Pela divisão dos quartos, proposta pela senhora da casa e a mais velha do grupo, as meninas deveriam dormir na casinha, pois lá teriam mais liberdade para assuntos e assim ficariam distantes dos rapazes assanhados que eram em maior número.

A garota mais velha levava uma lamparina e era seguida pela mais nova, de estatura menor, que a segurava pelo cotovelo. Fazia frio. Pelas árvores de troncos tortuosos e folhas escuras, passava um vento gelado que soprava suas nucas e encorajava a pressa.

– Não gostei nada dessa ideia. Por que logo nós? – Reclamou a mais nova com suas pupilas bem dilatadas por causa da pouca luz.

– Vamos! Não reclame. É um quarto muito bom e não temos que discordar da senhora. – Retrucou a outra, batendo os dentes.

A pequena assentiu através de um aceno de cabeça nada convincente, enquanto a companheira puxava do bolso de sua camisola, a chave para abrir a porta da casinha. Destrancada, a porta foi empurrada em um rangido incômodo de fazer doer os ouvidos. Pequenos estalos no interior do quarto fizeram a pequenina gritar dando três pulinhos para trás, obrigando a maior a contê-la, puxando-a pelo braço.

– Shhh! Quieta! Não queremos chamar a atenção da sede. – Alardeou-se a maior.

– Eu não quero dormir aqui. – Afirmou a outra sem negar as lágrimas que agora marcavam suas bochechas. – Você ouviu os estalos? Tem bichos aqui, sei que tem. Foram eles.

– Não tem bicho nenhum. Deixa de ser boba. Quer ver?

Sem mesmo esperar pela resposta, a maior esticou o braço esquerdo com a lamparina para o interior do cômodo. Realmente não havia nada ali que seus olhos pudessem condenar como uma ameaça. Apenas um quarto pequeno, com duas camas bem arrumadas, uma porta fechada para o banheiro e uma janela com sua cortina de tecido cru batendo contra a parede devido às lufadas do vento.

Quando a maior entrou, a menor correu para uma das camas e se sentou. Em nenhum momento desgrudou os olhos da maior que cuidou de acender a lareira e apagar a lamparina a fim de economizar o querosene.

– Melhor fecharmos a janela, senão essa chama não irá durar muito. – Concluiu a mais velha.

– Acho bom… Aqui dentro tá muito frio.

Após a maior girar o trinco da janela, a cortina repousou e não mais tremulou. Por uma fresta pequena, persistiu apenas o vento através de um silvo agudo que não tranquilizou a menor.

– Não tem como fazer isso parar?

– Não, não tem. Mas não se preocupe com isso, logo você se acostuma com o barulho. Agora vamos, deite! Assim a noite passa mais rápido. – Orientou a mais velha enquanto rumava até sua cama e se sentava.

– Não quero dormir. Tô com medo. – Continuou a menor.

– Medo do quê?

– Não sei dizer… Sinto como se não tivéssemos sozinhas aqui dentro. – Prosseguiu a pequena, agora deitada com os braços cruzados sobre o peito e os olhos apontados para o teto como quem olha para o nada.

– É impressão sua. Tente dormir que esse medo acaba. – Aconselhou a maior, agora incomodada com o despertar de uma pequena ponta de medo bem no centro do peito.

– Tá! Vou tentar. – Concordou a outra, virando-se de lado e cobrindo melhor o corpo com a colcha de retalhos confeccionada pela avó.

Então, no instante em que, sem saber, as duas fecharam os olhos ao mesmo tempo, três batidas fortes no telhado fizeram as duas levantarem os ombros das camas.

– O que foi isso? – Gritou a menor com o rosto sem o seu tom rosado natural e o coração acelerado.

– Calma! Devem ter sido os galhos da árvore batendo contra o telhado por causa do vento. – Tranquilizou a mais alta, sentindo também o seu coração saltar, no momento em que novas pancadas aconteceram no teto, porém mais espaçadas. – Está vendo? É a arvore.

– Quero voltar para a sede. – Disse a pequena aos prantos.

– Não, não chore. Vai ficar tudo bem. Vamos, me dê a sua mão. – Pediu a maior esticando o braço na direção da segunda cama.

Quando a mais velha sentiu sua mão apertar a outra mão, a chama da lareira se apagou e a escuridão tomou o quarto. A pequena se amedrontou um pouco mais, mas por outro lado, sentia-se segura apertando a mão de sua companheira da noite. E nesta posição, as duas conseguiram pegar no sono, sem se preocuparem em novamente acender a lareira, deixando que apenas as colchas as escondessem do frio.

No início da manhã, as duas meninas foram despertadas pelo cacarejo do galo. O frio se dissipara e, em seu lugar, veio um calor agradável em forma de doces raios solares que invadiram o quarto pelas frestas da porta, da janela e do telhado. A mais velha sorriu para a mais nova que gargalhou, não acreditando ter sido capaz de dormir na casinha. Tomou a iniciativa e esticou o braço para tocar sua parceira, em sinal de agradecimento, e retomar a posição que a levou ao sono. A mais velha fez o mesmo. Porém, não conseguiram se tocar, nem mesmo as pontas dos seus dedos mais compridos se tatearam. As duas estavam distantes demais para possibilitar qualquer contato, ou aperto de mão. Contorceram os ossos dos dedos e, na impossibilidade do toque, se agonizaram no vazio de suas lembranças.

Um outro eu

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Pequeno Lamento ou o Desabafo do Chato

Um dia desses viro a rua e encontro um outro eu.
Dou um aceno e faço a volta.
Medo de encarar de frente, sabe!
Doído pensar em defeitos e materializá-los em conhecidos.
Certa vez ouvi de alguém que pessoas chatas são aquelas que chamam.
Não me acho chato! Mas se perguntarem a cada um de meus irmãos, por certo virá em mim essa definição: chato.
Estico o braço e cavo um buraco.
Lá escondo minhas imperfeições.
Tomara Deus que esse esconderijo não seja descoberto.
Prefiro apagar meus medos e viver de alívios.
Porém mundo doído é exigente.
Transfigura “eus” irrecusáveis e existentes.
Defesa obrigatória para preservar meu espaço.

outro eu

Sábados passados

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sono do snoopy

sono do snoopy (imagem da internet)

Abrigo

Quando me sinto sozinho,
A razão me cega e mente.
Quero o simples, peço mimo.
Em noite fria encostar umbigo.

Quando me sinto sozinho,
minha vida para de repente.
Sábado longo, tempo infindo.
Vou me afogar no sono e
da dor, esconder abrigo.