Para os corações carentes de letras

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one-star-roberto-weigand (1)

Uma estrela, ilustração de Roberto Weigand

Costurado

Eu tenho me ausentado durante este longo, longo tempo.
Seria falta de ação, dedicação ou de meu sentimento?
O fato é que não posso ignorar esta emoção toda que tenho.
E compartilhar aquilo que na mente é bagunçado e turbulento.

Peço desculpas e preparo na agulha uma nova linha de costura.
Uma linha diferenciada, ao invés de fibras, palavras apaixonadas.
Para quem sabe suturar com sílabas rimadas corações sedentos.
E assim ficar poesia, meu fragmento de alma, minha ternura, meu tormento.

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Poema para o temporariamente impronunciável

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Ilustração de Katelin Szegedi

Ilustração de Katelin Szegedi

Ditado

O como é que se fala tá no meio da frase.
Tá no meio do verso.
Tá na estante no instante que meço.
Tá quando a pessoa sente a dúvida.
Tá onde o cego toca o incerto.
Tá onde mora o sonho.
Tá onde há a vírgula.
E também tá entre as vírgulas.
Tá entre mim e você.
É do tamanho do arranha céu,
mas ainda cabe no ventre.
Tá onde o suspiro vem.
E onde o outro entente.
É um tempero, uma nota, um verde.
Como é que se fala mesmo?
Tá no coloquial e tá no verbo.
Tá no nosso dia a dia.
Tá com você desde o feto.
Tá comigo e na mesa ao lado.
Tá na linha onde marca o metro.
E tá nos parênteses.
Tá com Deus e no adeus!
Tá na hora em que temos de partir
E como é que se fala mesmo?
Tá no ponto que breve será fim.

Dedicado à poesia enciumada

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Amor 2 de MaRitxeLL RibaS

Amor 2, ilustração de MaRitxeLL RibaS

Música incompleta

Sou uma música incompleta.
Composta por palavras solteiras
Sem acompanhamento, arranjo ou coral.

Sou uma música rarefeita.
Isenta de ritmo, melodia e efeito.
Apenas uma vírgula à direita e um zero alheio.

Sou a música sem o intérprete.
Carente do banco e do pedestal.
Sou a fala sem o teu carisma.
Sou o silêncio em verso atonal.

Sou a música endoidecida.
Esquecida e não compartilhada.
Sou também a subestimada sinestesia.
Um diálogo quebrado, longe de ser essencial.

Mas sou poesia e defendo significados.
E aguardo leitores para completa-los.
Gosto da identificação e defendo a catarse.
Namorado do princípio e amante do emocional.

Poema para os vampiros de palavras

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Vincent - Tim Burton

Frame do curta de animação “Vincent” de Tim Burton (1982)

Girl and papers - Maritxell Ribas

Ilustração de Maritxell Ribas

Quando me falham as ideias
(Vampiros de palavras)

Passei cola no verso de cada folha,
a fim de pregá-las aqui do meu lado.
No meu quarto existem intrusos.
Gatunos caçadores de ideias alheias.
Feito vampiros, eles curtem mordidas.
E nos furos, sugam o sabor criativo das veias.

São invisíveis esses morcegos danados.
E gostam de nos confundir.
Estão ali, quando você nada vê.
E estão aqui, quando me faltam as palavras.
Chegam silenciosos como brisas,
mas são furacões às mentes aladas.

Contudo agora tenho as folhas coladas.
Em cada uma, as letras ilustradas.
Pois também sei trabalhar com códigos.
E assim atrapalho a ação desses gulosos.
Tenebrosos, vão se embora e eu apaziguado.
Ao menos do final deste ponto até o início dos próximos.

Aquele poema que me falou dos sentidos

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Alice no país das maravilhas ilustração

Ilustração de "Alice no país das Maravilhas", obra de Lewis Carroll

Acordar

Sonhei minha língua enrolada.
Sem completar uma conversa.
Meus amigos ensaiavam festa.
Eu sem cantar no canto me resta.

Olhos despertos recobro os sentidos.
Intensificados foram tantos vividos.
Sonho em cores como muitos poetas.
Inspirados pelo forte intuito e libido.

Vou escrever rimas e depois cantar.
Sou amante do tato e agora ouvido.
Quero ler encantos na pele, sorrindo.
Inalar poesia torna doce meu paladar.

Poema do teatro sonhado

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Naomi Watts em "Mulholland Drive" (dir. David Lynch, 2001)

Naomi Watts em "Cidade dos sonhos" (Mulholland Drive, dir. David Lynch, 2001)

Poema teatralizado

Sonhei com uma mulher no palco.
Diante de uma plateia vazia. Distraída.
O mundo segurado nas pontas dos dedos
a deslizar e equilibrar-se por um triz.
Atriz. Seu braço esticado sobre o tecido azulado.
Um céu nublado, caído, costurado e cortinado.
Um pouco mais afastado, o ator.
Tão distante, soberbo, perdido em torpor.
Elegante e alinhado em figurino semelhante.
Composição de um quadro, um cenário sem margens.
Desalinhado, mal acabado, apenas um sonho.
Um devaneio a despertar interesse.
Teatro! Faz este um espaço de encontro.
A metalinguagem dos apaixonados.
A rubrica que faltava para o entendimento.
A fala, o diálogo, a música e o tempo.
Tão etéreo e eterno, este teatro
sou eu, mais um pouco, o conjunto e o verbo.