Poema para os perdidos de si

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lecarre4

Ilustração de Pierre Pratt

O intruso

Ele entrou por uma porta até então ignorada.
Estavam todos ali apáticos à espera do nada.
Feito uma nova luz incidente por janela quebrada,
Ele veio ativar a energia há tempos desligada.

Algumas pessoas se levantaram e caminharam intimidadas.
Ainda havia o medo e a novidade era estranha e incomodava.
O primeiro a toca-lo gritou e deixou a pele arrepiada.
Já o segundo beijou seus pés e lamentou dor enquanto chorava.

O terceiro foi interrompido antes de sua tateada.
Ele disse não querer toques, apenas olhos, ouvidos e palavras.
Além de palavras, ações para suspender a inércia acomodada.
E buscar vida onde há pouco era cinza e a coragem ausentava.

E assim como no princípio, Ele sumiu veloz numa piscada.
E todos ficaram em pé numa sensação de alma pesada.
Era doído entender o simples, a resposta curta e derramada.
Era a culpa feito agulha no peito, a vergonha espetada.

O intruso resumia a força, o desejo e a ideia motivada.
Que nada mais o impedia, exceto a vontade de cada.
Ele era o indivíduo, o coletivo, a fé resgatada.
E era tão simples…
Bastava um sopro pra deixar a esperança despertada.

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Para ser lido numa semana cinza

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Ilustração de Roberto Weigand

Ilustração de Roberto Weigand

Poeta de frases infantis
– dois –

Há um bom tempo eu não vivia essa emoção toda.
Desacostumado hábito, eu me virei do avesso.
Desperto sentimentos puros e prossigo desatento.

Bom chorar em situações de alma.
Estou vivo, constato a infantilidade.
Devolvo sorriso às lágrimas e faço nosso momento.

Aprecio as apaixonadas atitudes.
Abraço a música e reproduzo com calma.
Tão bom deitar no colo e deixar o coração aberto.

Triste acaso, toda minha semana amanheceu cinza.
Estou longe e me belisco numa enorme vontade.
Melhor lembrar apenas as alegrias e ser eterno…

POEMA PARA QUANDO HOUVER REVOADA

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"Beso amor" de Marina Anaya

“Beso amor” de Marina Anaya

Amor de passarinho

Se eu pudesse representar nosso amor, desenharia passarinhos.
Saltando de nossas cabeças, tomando o céu e outros ninhos.
Levando nos bicos as sementes dos nossos corações afetivos.
Para semear alegria que não teve na terra seus devidos adjetivos.

E daí virão outros pássaros para um encontro de asas e assobios.
Livres, amontoados, empoleirados, feito o calor de fortes abraços.
E na despedida, a revoada deixará para trás suas penas coloridas.
Para pintar este chão de outono, nosso amor enraizado, nossas vidas.

Poema para os de repente incompletos

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Columpio de Luís Alves

Columpio de Luís Alves

Vazio

Por um pequeno descuido, perdi um pedacinho de mim.
Fininho feito fio de pipa a voar macio pra um lugar sem fim.
E estacionou lá longe, onde se escondeu da imaginação.
Mal sabe ele, esta intempérie fere, testa e confere o destino,
de ficar sozinho, bandido e incompleto, sem o meu carinho.

Poema para o novo começo

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Ilustração de Yao Xiong

Ilustração de Yao Xiong

Mudança

Após nossa demorada conversa resolvi fazer a mudança.
Juntei minhas ideias e atravessei a praça da significância.
Segui pela rua das palavras e dos verbos de importância.
Para nos guardar no canto do afeto e das boas lembranças.

Ali a lua derramou sua ternura e me confiou estrelas em chuva.
Então assoviei uma canção e ricocheteou mais de um coração.
Foi você agora uma fantasia para o tempo ter mais doçura.
E preservar vidas separadas reinterpretadas pela imaginação.