Poema para os perdidos de si

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Ilustração de Pierre Pratt

O intruso

Ele entrou por uma porta até então ignorada.
Estavam todos ali apáticos à espera do nada.
Feito uma nova luz incidente por janela quebrada,
Ele veio ativar a energia há tempos desligada.

Algumas pessoas se levantaram e caminharam intimidadas.
Ainda havia o medo e a novidade era estranha e incomodava.
O primeiro a toca-lo gritou e deixou a pele arrepiada.
Já o segundo beijou seus pés e lamentou dor enquanto chorava.

O terceiro foi interrompido antes de sua tateada.
Ele disse não querer toques, apenas olhos, ouvidos e palavras.
Além de palavras, ações para suspender a inércia acomodada.
E buscar vida onde há pouco era cinza e a coragem ausentava.

E assim como no princípio, Ele sumiu veloz numa piscada.
E todos ficaram em pé numa sensação de alma pesada.
Era doído entender o simples, a resposta curta e derramada.
Era a culpa feito agulha no peito, a vergonha espetada.

O intruso resumia a força, o desejo e a ideia motivada.
Que nada mais o impedia, exceto a vontade de cada.
Ele era o indivíduo, o coletivo, a fé resgatada.
E era tão simples…
Bastava um sopro pra deixar a esperança despertada.

Para os corações carentes de letras

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Uma estrela, ilustração de Roberto Weigand

Costurado

Eu tenho me ausentado durante este longo, longo tempo.
Seria falta de ação, dedicação ou de meu sentimento?
O fato é que não posso ignorar esta emoção toda que tenho.
E compartilhar aquilo que na mente é bagunçado e turbulento.

Peço desculpas e preparo na agulha uma nova linha de costura.
Uma linha diferenciada, ao invés de fibras, palavras apaixonadas.
Para quem sabe suturar com sílabas rimadas corações sedentos.
E assim ficar poesia, meu fragmento de alma, minha ternura, meu tormento.

POEMA PARA QUANDO HOUVER REVOADA

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"Beso amor" de Marina Anaya

“Beso amor” de Marina Anaya

Amor de passarinho

Se eu pudesse representar nosso amor, desenharia passarinhos.
Saltando de nossas cabeças, tomando o céu e outros ninhos.
Levando nos bicos as sementes dos nossos corações afetivos.
Para semear alegria que não teve na terra seus devidos adjetivos.

E daí virão outros pássaros para um encontro de asas e assobios.
Livres, amontoados, empoleirados, feito o calor de fortes abraços.
E na despedida, a revoada deixará para trás suas penas coloridas.
Para pintar este chão de outono, nosso amor enraizado, nossas vidas.

Poema para os de repente incompletos

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Columpio de Luís Alves

Columpio de Luís Alves

Vazio

Por um pequeno descuido, perdi um pedacinho de mim.
Fininho feito fio de pipa a voar macio pra um lugar sem fim.
E estacionou lá longe, onde se escondeu da imaginação.
Mal sabe ele, esta intempérie fere, testa e confere o destino,
de ficar sozinho, bandido e incompleto, sem o meu carinho.

Poema para os amores equivocados

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Ilustração de Cori Dantini

Ilustração de Cori Dantini

Poesia equivocada

O que sobrou de nós dois foi apenas uma poesia.
Uma hipocrisia, pois a segunda atrevida se cria.
Versos meus, evito lembra-los do quanto sorria.
Dedico rima pobre para quem facilmente já ia.
Então prossiga e veja se encaixa noutra fantasia.
Inspirações tenho tantas para amar em demasia.

Poema para quando procurar uma origem

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"El Principito" (O pequeno príncipe), ilustração de So Ri Yonn

“El Principito” (O pequeno príncipe), ilustração de So Ri Yonn

Jogo de Queixo

Quatro linhas e um jogo da velha no queixo.
Duas quedas e um poeta longe do eixo.
Criança inventiva na ardósia deixou rima.
História repetida teve prova ao olhar pra cima.

Lembranças de menino pra espantar a rotina.
E outras fantasias emotivas com formas criativas.
Promessas sobre rabiscos em pisos de giz, quis…
Tardar o crescer para o consciente ser mais feliz.