Para aqueles que nunca desistiram de sonhar

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Ilustração de Varya Kolesnikova

Ilustração de Varya Kolesnikova

Maior que um adulto

Sonhou que era maior que um adulto.
Levantou apressado e se dirigiu à mesa da cozinha.
O bom amigo peludo o esperava sonolento.
Ele ainda bocejava. Seus olhos pregados e lacrimejo.
Pode me servir um pouco de leite?
Pediu o pequeno vestido de pijama azul acordando a criatura.
Sem questionar, o monstro de pelos dourados se aprumou.
Um sorriso de dentes grandes e os olhos negros,
feito duas jabuticabas perfeitas com o brilho do orvalho.
O menino também aceita os biscoitinhos da vovó?
Ofereceu, o monstro.
Enquanto o pequeno sorria o “sim”, da janela,
um pássaro atrevido cantava umas notas.
O gato debaixo da pia correu atrás da rotina.
Sai pra lá gato! Bravejou o garoto com a boca de biscoitos.
O monstro gargalhou e melou sua barba leonina de leite adoçado.
Já organizou suas coisas da escola? Perguntou no fim.
Depois de um demorado muxoxo, o garoto regressou ao quarto.
Quando voltou uniformizado à cozinha, o pássaro desempoleirou.
O gato ronronou e depois da porta se apagou.
E o amigo na cozinha não mais se encontrava.
O cheirinho do café torrado ainda tão gostoso! Pensou.
Já está pronto, querido? Perguntou a mãe.
Seu pai te espera no carro! Ela disse ao caminhar para o quintal.
Quando a mãe deixou a cozinha, o menino olhou para os lados e abriu o armário.
Encontrou o amigo escondido no meio dos pratos.
Desculpe! Pediu o monstro num sorriso abobalhado.
Ainda não saiu, menino? Corre que seu pai tá te esperando!
Ordenou a mãe ao voltar, segurando a bacia metálica repleta de roupas.
Através de um chute, a criança fechou a porta do armário e voou.
Assim que chegou à calçada, viu o carro estacionado.
O pai com o rádio ligado cantarolava baixinho uma canção.
Impossível não se lembrar da criatura estocada no armário.
Queria dividir aquilo. Viver criança e ter sua companhia na escola.
Sorriu mais uma vez e, de repente, regressou a ideia que havia sonhado.

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Poema cantado pelos anjos

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anjo barroco

Anjo Barroco

Ponta do céu

No quintal de minha casa fica a ponta do céu.
Na extremidade onde linhas românticas se afinam e se entrosam.
Um pedaço maior que a imensidão de meu pensamento.
Lá onde anjos de cabelos encaracolados se abraçam e cantam melodias de ricas rimas.
Entoando um vocabulário de idiomas distintos para ressaltar o meu afeto.
Nobre canto de líricos gracejos.
Quero minha língua enriquecida de adjetivos.
Sou um pedaço desse céu de onamotopeias infinitas que a cada dia se despedaça em flores e em chuvas.
Deixando minha natureza ainda mais bela e alentada pelo desejo.
Oh céu distante e agora perto que as vezes desperto!
Novo reino de inventividade que brotou em janeiro e jardineiro quer deixar meus dias ainda mais coloridos.
Longe da terra e do dissabor de ser pequeno.
Moro no local onde habita a ponta do céu.
Que esta seja a ponte de minha felicidade e de todos aqueles que semelhantes tenham a curiosidade…