Poema para mentes fantasiadas

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"Leyendo metro", ilustração de Leah Piker

“Leyendo metro”, ilustração de Leah Piker

Habituada

Ela adormeceu logo após a primeira curva.
Condução lotada e barra feito travesseiro.
Já estava habituada à rotina de sacolejos.
E não mais sentia medo de ir por inteiro.

Sonhos travessos para metamorfosear.
Rostos estranhos em amigos do peito.
Ruídos grosseiros em cantos perfeitos.
Pisos degradados em nuvens de afofar.

Palavrões viram balões para estourar.
Fones no ouvido para corpo flutuar.
Um esbarro cria um passo inusitado.
E com outros, um ballet improvisado.

Inventividade para apagar tormentos.
E fé para seguir seu planejado intento.
Um sorriso capaz de mudar o momento.
E fazer da jornada diária, agradecimento.

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Um texto sincero

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Bom dia ao porteiro

O meu primeiro bom dia vai ao porteiro.
Talvez esse seja sinal de uma rotina solitária.
Onde a primeira pessoa encontrada é o funcionário.
Hoje me questionei a respeito.
Rotina de solteiro?
Espaços vazios preenchidos por uma pessoa que mal conheço?
Mas tudo corre tão rápido.
Acho que não chega a trinta segundos.
O fato é que gosto dele.
Um senhor de idade, cabelos grisalhos e cara bem simpática.
Sei que mantém o trabalho para ajudar a família.
Foi o síndico uma vez que me disse.

Geralmente o porteiro, o Sr. Gastão…
Espera!
Abro aqui um parênteses, faltou dizer que esse é seu nome.
Nome gozado. Aumentativo de gasto.
Não. Acredito que não se deva aplicar esse adjetivo.
Melhor lembrar daquele vilão de uma história infantil.
Um desenho animado cantado.
Às vezes canto sua estrofe. Soa divertido.
Mal sabe ele disso.
Voltando. Geralmente o porteiro, o Sr. Gastão,
responde meus cumprimentos com grunhidos.
Sussurros alegres, surpresos e diferenciados.
Acho que fica alegre toda vez que me vê.
Será que sou a única pessoa a receber tão grande contentamento?
Prefiro acreditar que sim e ser especial.

O meu primeiro bom dia foi ao porteiro.
Penso em sua rotina paralisada.
No mesmo lugar todos os dias.
As mesmas pessoas indo e vindo.
Às vezes alguma novidade.
Entregas de correspondências e toc toc’s enganados.
Vizinhança chata, aos gritos, carregada de problemas.
E o pobre senhor deve escutar.
Será que ele resolve? Acredito que não.
Perdoe senhor Gastão pela conclusão pessimista.
Não quero ser indelicado.
Apenas desejo sorte de não ter que aturar tais moradores.
Após o almoço, ele desaparece.
Imagino que tenha largado seu posto, contente.
Os outros porteiros entram.
Esses são legais também, geralmente prestativos.
Mas deixemos bem claro.
Nenhum se compara ao alegre e sussurrante Sr. Gastão.

O meu primeiro bom dia irá ao porteiro.
Por que não dividir esse singelo cumprimento?
O anúncio e o desejo de um dia bom.
Hoje cedo, em meu retorno, ele me abordou.
Pediu um sapato velho.
Não para ele, mas para a caridade.
Ah! Como me sinto culpado.
Ano passado, na covardia, joguei alguns pares foras.
Talvez alguém tenha pegado, mas fico na incerteza.
Estavam velhos, rasgados, impróprios para o uso.
Não queria que ninguém passasse pelo desconforto
e pela desumanidade de usá-los.
Senti vergonha ao relembrar.
Não cogitei o conserto.
Agora confesso e que me venham as pedras.
Perdoe-me senhor Gastão.
Conheço-te tão pouco, mas sinto que merece o que há de melhor.
Sim! O senhor merece o meu melhor bom dia.

Que seja eternamente maravilhoso.