Poema dedicado aos amores juvenis

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Ilustração de Thai My Phuong

Ilustração de Thai My Phuong

Cartão Postal
(ou O Senhor da Saudade)

Sentia-se presa dentro de sua própria casa nos últimos meses.
Escrevendo passarinhos e sinais com polegares em redes sociais.

Sua mãe atormentava e quantas vezes intrometia, era seu espaço.
Ah mãe, me deixa um pouco, não me tente ganhar pelo cansaço!

Ele havia viajado e há quantos dias não deixava um simples recado.
O aparelho ligado, ela ia toda hora atrás de um status mudado.

Nada de novo, exceto mensagens curiosas de amigas por novidades.
Saudades! Até seu sono andava mal dormido sonhado ultimamente.

Entrementes, sua mãe invade quarto dizendo carteiro ter passado.
E o que tem a ver isso, contas e faturas não são teus cuidados?

Mas tinha um cartão postal assinado pelo senhor de toda saudade.
Ai me dê logo aqui! Você não leu nada, né? Que morro de verdade.

Uma mensagem de poucas linhas, sua letra tão feiosa, o desleixado.
Mas tão lindo por ser ele e foi calar os soluços no colo acostumado.

Duas semanas terminadas, na escadinha de sua casa ela esperava.
Ouviu o ruído da bicicleta e seu coração apertadinho desconfiava.

Aquele assovio, com certeza era ele, então se levantou desajeitada.
Folhas do outono enfeitaram o reencontro de duas almas separadas.

Nas pontas dos pés, ele um tantinho mais alto, um abraço para guardar.
Surpresa foi vê-lo chorando, provou um beijo e amou o sabor do mar.

Aquele onde o som lembra a buzina

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Cueva

"Cueva" de Lin Wuan

Prima

De repente aconteceu de repetir.
Salvei seu número e guardei Bibi.
Nossos momentos adormecidos
agora presentes e reiniciados.
Prontos para um novo começo
e mais abraços apertados.

Vezes e outras vou ligar e conectar!
Minha alma tá tão saudosa de afetos.
De perto, sabe, é saboroso e honesto.
Peço mimo e recordo sons e objetos.

Flashes guardam nossos instantes.
São quadrinhos eletrônicos e atônitos.
Juntos vamos compartilhar e sonhos lembrar.
Nossa amizade! Ah! Deixou saudoso e romântico.

Àqueles que discutiram com o tempo e restou a saudade

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la maison vide

A casa vazia ("La maison vide" de Jacques Place)

Andanças

Com o tempo eles foram embora.
Suas camas agora desarrumadas e vazias.
Sem o agito de todas as manhãs.
Sem as bênçãos que tanto gostava nos finais dos dias.

A copa sem os pratos e talheres distribuídos.
O jardim carente dos buracos e dos brinquedos espalhados.
Não ouço mais as gargalhadas e as broncas repetidas.
Fico apenas com o felino que manhoso vem cheio de miados.

Na casa sobraram o meu pouco e a lembrança.
O meu afeto ressaltado na mentira de um ensaio.
Um abraço apaixonado encenado no vento, em torno, no nada.
Lembrando meus netos, meus filhos, o dentro e o fora do balaio.

Sinto minha memória envelhecida com outros tempos.
Fui mesmo capaz de gerar tudo isso que lembro?
Sei que nestes corredores houve vida, houve cor.
Hoje só são meus passos e essa mobília deteriorada e sem valor.

Quero voltar à minha infância e nela recriar minha morada.
Novamente crescer e cuidar sem grandes cobranças.
Um tempo mais caloroso e um pouquinho vagaroso.
Voltar comigo, meu corpo, com carinho, os outros e as andanças.

Para ficar do meu lado

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Eros e Psyche

Eros and Psyche, C. G. Kratzenstein-Stub

O lado bonito

A saudade quando chega
ocupa o lado bonito do coração.
Se dói, é porque algo de bom há ali.
A alma falece quando se fecha em vazios.
Lembranças de um tempo bom, presente.
Aproximar e aproveitar o instante,
atitudes belas, leves e merecidas.
Viver é muito saboroso quando amamos.
Para que lacrar sentimentos em caixas?
Prefiro ter chaves mestras
e abrir em momentos de faltas.
A saudade quando chega
preenche o lado bonito do peito.
Vamos flechar sonhos e viver ao lado.

Palavras do Saudosista

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irmãos

Volta à Casa

Ela subia a ladeira de ladrilhos ladeados.
Forte, segurava duas sacolas de compras,
que marcavam a pele e fadigavam os punhos.
Era o mercado para a semana inteira durar.
Os bolsos vazios lamentavam as últimas moedas gastas.
O menino vinha logo atrás, chutando pedrinhas a esmo.
Carregava uma sacola de peso leve, era o que podia ajudar.
A menina fazia bico e caminhava preguiçosa,
seus braços cruzados, manhosa e birrenta.
Não ganhara o doce que tanto pedira e por isso amargurava.
O menino olhava para trás e escondido gargalhava zombeteiro.
A menina, ainda mais irritada, começava a gritar:
o nome da mãe, o nome do irmão, sua irritação.
A mãe, muito nervosa, respirava a sobra da força que tinha.
Lamentava! A menina calava e o menino escondia a face.
O restante era a caminhada silenciosa e a distância curta.
Logo encontrariam uma rampa, um portão, duas escadas e uma porta.
O barulho registrava a batida na madeira e o giro da tranca.
No andar acima, as crianças guerreavam quem seria o primeiro.
Não importava o destino, a motivação era o prazer da disputa.
A mãe passava frente e abria a segunda porta branca.
Eram tomados pela forte luz clara
e pelo familiar aroma da casa limpa e arrumada.
Entravam felizes!
Era o lar, a família, a infância e nada além disso.