Uma desculpa para escrever você

Standard
Primavera de Brian Wildsmith

Primavera de Brian Wildsmith

O velho jardim da nova casa pronta

Convidei-a para atravessar o jardim da nova casa pronta.
Terreno perigoso, ameaçado por chuvas de broncas.
Ela não hesitou e segurou ligeira minha mão de bobeira.
Então me levou até o muro riscado pelos irmãos Poeira.

“Apenas me dê um impulso que eu alcanço o topo torto”.
“Tá bom!”, dedos cruzados transformados em degrau frouxo.
Ela pulou e atravessou correndo sem esperar sufoco.
Deixou pra trás risadinhas que no passar sumiam aos poucos.

Saltei o muro e no topo restou parte de minha blusa limpa.
Segui rapidamente feito lebre com medo de perder a frente.
E lá estava ela, ajoelhada diante do córrego de espelho.
Castigo terem fechado o muro e nos privado deste evento.

“Lindo demais, não? Ainda sinto falta daqueles mergulhos.”
“E por que não?”, ela tinha esse jeito assim de adulto orgulho.
Não emendei, apenas adiantei e ao seu lado ajoelhei refém.
Era engraçado observar como era tão linda a criança atrevida.
Cheia de vida, idade ainda curta e com incríveis ideias ditas.
Soprei seu ouvido e o vento perpetuou o arrepio do final do dia.
As flores combinaram e doaram pólens perfumados em sincronia.

Pulamos para o interior do espelho e bagunçados atravessamos.
Os peixes nos acompanharam até o deck da casa do senhor Ramos.
“Você não pode subir aqui comigo! Senão à noite terei problemas.”
Ela seguiu pra casa e eu novamente peixe me transfigurei pequeno.

Lembranças deste tempo que quando jovens compartilhamos.
Hoje estamos em cidades distintas, vez ou outra, comunicamos.
Ela casada há pouco tempo e eu solteiro me fazendo homem.
Memórias em poesia pra ela que deixou no filho o meu nome.

Anúncios

Poema para os amores separados

Standard
Ilustração de Patrice Barton

Ilustração de Patrice Barton

Primeira despedida

Eles me disseram que você partiria na manhã seguinte.
Por que tão subitamente quiseram partir meu coração?

O nosso cantinho descolado será ocupado pelo vazio.
E o mato calado, aposto, terá saudades dos cochichos.

Segredos nossos, verdadeiros, isto espero não esqueça.
E que de vez em quando desça para me visitar e sonhar.

Descalçar os sapatos para esta grama nossa acarinhar.
E acostumados, correr para felicidade próxima alcançar.

Não queria, mas como despistar a temida despedida?
Já sinto falta dos meus dedos nos nós de seus cabelos.

E dos gritos de nossos pais e você voltando comedida.
Eu rindo bobo até dos machucados tolos dos joelhos.

Saiba que debaixo desta pedra guardei nossas iniciais.
Riscadas por chave velha em cimento sujo e confiável.

Amável será este nosso último abraço desajeitado.
E depois virão outros e mais outros de outros reencontrados…

Poema dedicado aos amores juvenis

Standard
Ilustração de Thai My Phuong

Ilustração de Thai My Phuong

Cartão Postal
(ou O Senhor da Saudade)

Sentia-se presa dentro de sua própria casa nos últimos meses.
Escrevendo passarinhos e sinais com polegares em redes sociais.

Sua mãe atormentava e quantas vezes intrometia, era seu espaço.
Ah mãe, me deixa um pouco, não me tente ganhar pelo cansaço!

Ele havia viajado e há quantos dias não deixava um simples recado.
O aparelho ligado, ela ia toda hora atrás de um status mudado.

Nada de novo, exceto mensagens curiosas de amigas por novidades.
Saudades! Até seu sono andava mal dormido sonhado ultimamente.

Entrementes, sua mãe invade quarto dizendo carteiro ter passado.
E o que tem a ver isso, contas e faturas não são teus cuidados?

Mas tinha um cartão postal assinado pelo senhor de toda saudade.
Ai me dê logo aqui! Você não leu nada, né? Que morro de verdade.

Uma mensagem de poucas linhas, sua letra tão feiosa, o desleixado.
Mas tão lindo por ser ele e foi calar os soluços no colo acostumado.

Duas semanas terminadas, na escadinha de sua casa ela esperava.
Ouviu o ruído da bicicleta e seu coração apertadinho desconfiava.

Aquele assovio, com certeza era ele, então se levantou desajeitada.
Folhas do outono enfeitaram o reencontro de duas almas separadas.

Nas pontas dos pés, ele um tantinho mais alto, um abraço para guardar.
Surpresa foi vê-lo chorando, provou um beijo e amou o sabor do mar.