Poema criado na eventualidade

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riccardo guasco

Love giant, ilustração de Riccardo Guasco

O gigante de ego cheio

A montanha me flertou quando preso no trânsito eu estava.
Ela usava um acinzentado véu de nuvens pra cobrir a face larga.

Carros enfileirados em semáforos teimosos de verde e vermelho.
Mais motos e pessoas atrasadas enfrentando a vida, sem medo.

Quando me apareceu o gigante por de trás da montanha, um montante.
Um ser de pedras e lava seca por dentro fera e por fora mutante.

Um mostro de ego cheio pra abraçar a montanha e o medo aranha.
Pra depois cair em terra, no asfalto buracos e a pressa tamanha.

Enquanto eu aqui poetizo o meu lado em fantástico lirismo.
Pra ficar acostumado feito sonho vivido na eventualidade, o menino.

Poema para mentes fantasiadas

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"Leyendo metro", ilustração de Leah Piker

“Leyendo metro”, ilustração de Leah Piker

Habituada

Ela adormeceu logo após a primeira curva.
Condução lotada e barra feito travesseiro.
Já estava habituada à rotina de sacolejos.
E não mais sentia medo de ir por inteiro.

Sonhos travessos para metamorfosear.
Rostos estranhos em amigos do peito.
Ruídos grosseiros em cantos perfeitos.
Pisos degradados em nuvens de afofar.

Palavrões viram balões para estourar.
Fones no ouvido para corpo flutuar.
Um esbarro cria um passo inusitado.
E com outros, um ballet improvisado.

Inventividade para apagar tormentos.
E fé para seguir seu planejado intento.
Um sorriso capaz de mudar o momento.
E fazer da jornada diária, agradecimento.

Para aqueles que nunca desistiram de sonhar

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Ilustração de Varya Kolesnikova

Ilustração de Varya Kolesnikova

Maior que um adulto

Sonhou que era maior que um adulto.
Levantou apressado e se dirigiu à mesa da cozinha.
O bom amigo peludo o esperava sonolento.
Ele ainda bocejava. Seus olhos pregados e lacrimejo.
Pode me servir um pouco de leite?
Pediu o pequeno vestido de pijama azul acordando a criatura.
Sem questionar, o monstro de pelos dourados se aprumou.
Um sorriso de dentes grandes e os olhos negros,
feito duas jabuticabas perfeitas com o brilho do orvalho.
O menino também aceita os biscoitinhos da vovó?
Ofereceu, o monstro.
Enquanto o pequeno sorria o “sim”, da janela,
um pássaro atrevido cantava umas notas.
O gato debaixo da pia correu atrás da rotina.
Sai pra lá gato! Bravejou o garoto com a boca de biscoitos.
O monstro gargalhou e melou sua barba leonina de leite adoçado.
Já organizou suas coisas da escola? Perguntou no fim.
Depois de um demorado muxoxo, o garoto regressou ao quarto.
Quando voltou uniformizado à cozinha, o pássaro desempoleirou.
O gato ronronou e depois da porta se apagou.
E o amigo na cozinha não mais se encontrava.
O cheirinho do café torrado ainda tão gostoso! Pensou.
Já está pronto, querido? Perguntou a mãe.
Seu pai te espera no carro! Ela disse ao caminhar para o quintal.
Quando a mãe deixou a cozinha, o menino olhou para os lados e abriu o armário.
Encontrou o amigo escondido no meio dos pratos.
Desculpe! Pediu o monstro num sorriso abobalhado.
Ainda não saiu, menino? Corre que seu pai tá te esperando!
Ordenou a mãe ao voltar, segurando a bacia metálica repleta de roupas.
Através de um chute, a criança fechou a porta do armário e voou.
Assim que chegou à calçada, viu o carro estacionado.
O pai com o rádio ligado cantarolava baixinho uma canção.
Impossível não se lembrar da criatura estocada no armário.
Queria dividir aquilo. Viver criança e ter sua companhia na escola.
Sorriu mais uma vez e, de repente, regressou a ideia que havia sonhado.

Aquele poema que se intitulou de estranho

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Daehyun Kim

Ilustração de Daehyun Kim

Corpo estranho

Aconteceu quando a chuva parou.
Terminaram e deixaram o quarto.
Fez-se nova atmosfera e eu ali paralisado.
Preocupado, emudecido e meu ego recortado.

Apagaram as luzes e juntaram-me às sombras.
Mais um corpo no meio de tantas quinas estranhas.
Alguns ruídos reconhecidos e outros deslocados.
Não era meu espaço, mas também se fazia casa.

Casa rasa e vazia de significados.
Comigo habitado eram dúvidas e cantos esquecidos.
Cavei a saudade e busquei velhos sentidos.
Realidade minha adormecida, agora elétrica a despertar.

Imerso à espera mórbida e contínua.
Alfinetava-me o desassossego da descoberta.
Cheio de interrogações sobre a prevista acolhida.
Disposto a encarar a recente fissura aberta.

Um novo tempo, noutro sonho e o mesmo lar.
A luz amanheceu intrusa e solar de caricaturas.
Abriram a porta e mais uma vez entraram.
Invadiram emocionados e paralelo me calaram de abraços.

Poema antes de partir

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A morte do caixeiro viajante

Arte - Cartaz da peça "A morte do caixeiro viajante" (Death of a Salesman)

Embora

Vou embora antes.
Antes que o forno aqueça
e que ela tome forma.
Antes de provar o sabor
e de terminar a prosa.
Antes de piorar e de por tudo a perder.
Antes mesmo de entardecer
e o que somos esmaecer.
Vou sair e deixar a lembrança.
Que ela tenha força e seja prazerosa.
Que ostente o verbo e perdure
formosa, sem derrota.
Que viva comigo, contigo e com aqueles
que venham compartilhar.
Vou embora antes,
mas primeiro vou assinar,
este epílogo improvisado
que cresceu feito um sonho
de um apaixonado teimoso
que recusava acordar.

Aquele poema que me falou dos sentidos

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Alice no país das maravilhas ilustração

Ilustração de "Alice no país das Maravilhas", obra de Lewis Carroll

Acordar

Sonhei minha língua enrolada.
Sem completar uma conversa.
Meus amigos ensaiavam festa.
Eu sem cantar no canto me resta.

Olhos despertos recobro os sentidos.
Intensificados foram tantos vividos.
Sonho em cores como muitos poetas.
Inspirados pelo forte intuito e libido.

Vou escrever rimas e depois cantar.
Sou amante do tato e agora ouvido.
Quero ler encantos na pele, sorrindo.
Inalar poesia torna doce meu paladar.