Poema para os dois aventureiros

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Papai Batman - Ilustração de Andry Shango-

Papai Batman – Ilustração de Andry Shango

Telhado

Quando cheguei em sua casa, sua mãe me pediu para subir as escadas.
Quarto vazio com algumas revistas de colorir, na cama, empilhadas.
A janela aberta e a cortina dançarina no compasso do vento soprado.
Sinal acostumado, um pedido para que eu fosse encontra-lo no telhado.

Eu estava vestido com a minha capa vermelha do super-herói favorito.
O que me dava coragem de saltar da janela, direto pro desafiado telhado.
E lá estava ele, de costas acomodado, pés no céu e a conhecida capa amarela.
Cumprimentei-o de longe e, sem pedir licença, fui dividir o espaço sentado.

“Dia quente hoje, não?”, foi a primeira coisa que ele disse desde a manhã.
Mais cedo na escola, ele passara todos os turnos cabisbaixo e calado.
E lá, debaixo do seu braço cruzado, eu vi no caderno o adulto desenhado.
“Preparado para mais uma aventura?”, puxei assunto sem voltar ao notado.

“Hoje eu descobri o meu verdadeiro poder”, era esse o seu tom ainda amuado.
“E qual seria este poder?”, perguntei divertido para quebrar o não tolerado.
“Quando penso de repente em alguém, esse no mesmo dia aparece”, revelou.
Preferi nada responder de imediato e, no silêncio, um pássaro veio ficar do lado.

“Já o meu superpoder é escalar! E escalo hoje para um dia voar…”, escolhi.
“Não! É sério. Ontem mesmo pensei no Olho de Garrafa e ele apareceu”.
“Mas ele estava em casa por ordem do médico. Todos sabiam”, resgatei.
“Mas a sua volta não foi avisada. Eu descobri este dom, este dom que é meu.”

Após cutucar sujeirinhas entre as telhas, o pássaro saiu para imitar um avião.
“E hoje você tá assim desajeitado por ter ele desenhado?”, eu trouxe lá de trás.
Então ele buscou os meus olhos e, irmão, não repudiou o atrevimento da ação.
“Pois é…” continuou. “E eu sei que isto é algo do tipo impossível, mas…”

Ele não conseguiu completar sua ideia feito uma máquina em súbito defeito.
Ao longe, vimos garotos correr em campos de terra misturados em lambança.
“Ah! Não se preocupe, ele sempre vai tá aqui, óh!”, apontei para o seu peito.
“E o que me importa este lugar, se o que me resta do pai é só lembrança?”

“Quem sabe um dia ele volta? Não do habitual jeito, mas de outra forma?”
Arrisquei enquanto ele se levantava e mirava o sol que a se por começava.
“Quem sabe ele esteja em outra dimensão me esperando para brincadeira?”
“Sim! Isso mesmo. De repente ele tá com a capa azul pra te jogar de bobeira.”

E foi assim, no susto e inesperadamente doce, que o primeiro sorriso veio ficar.
“Então o meu novo poder será abrir buracos no espaço e pelo tempo navegar…”
“E o meu, que antes era apenas voar, será nada menos que a realidade mudar.”
“E não deixar que o impossível seja obstáculo para os aventureiros em sonhar….”

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Pequeno testemunho do primeiro viajante

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Musée d'Orsay, foto minha.

Musée d’Orsay, foto minha.

Vestígio

Perdeu-se do tempo há um bom tempo
Não reconhecia o terreno e o movimento.
Não se encontrava em próprio contexto.
Texto, testamento, para voltas e ventos.

Excêntrico, novo, transformado de novo.
Nascido pro mundo, pro longe, pra todos.
Pra fazer e contar uma história divertida.
Recomeço de tempo, outro sentido à vida.

Poema para o mundo que tanto observo e espero

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misturados

Foto minha – Instagram

Misturados

Fiquei aqui do seu lado para nos sentir isolados.
Exilados num banco qualquer de uma praça ao canto.
Tantos anos precisos para chegar esta importância.
E em momentos como esses são grisalhos e gatilhos
para um mundo que reconheço e percebo emocionado.
Navegantes, somos únicos num tempo prolongado.
Vem cá e me dê mais um abraço acostumado.
Que tal curtir a vista, os ouvidos e o que suceder?
Misturados continuamos frutos da paisagem urbana.
Inalterados na civilização mundana e apaixonados.
Temos pouco e o que nos resta muito nos agrada.
A tristeza esquecida e o desejo de mais anos somados.

Àqueles que discutiram com o tempo e restou a saudade

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la maison vide

A casa vazia ("La maison vide" de Jacques Place)

Andanças

Com o tempo eles foram embora.
Suas camas agora desarrumadas e vazias.
Sem o agito de todas as manhãs.
Sem as bênçãos que tanto gostava nos finais dos dias.

A copa sem os pratos e talheres distribuídos.
O jardim carente dos buracos e dos brinquedos espalhados.
Não ouço mais as gargalhadas e as broncas repetidas.
Fico apenas com o felino que manhoso vem cheio de miados.

Na casa sobraram o meu pouco e a lembrança.
O meu afeto ressaltado na mentira de um ensaio.
Um abraço apaixonado encenado no vento, em torno, no nada.
Lembrando meus netos, meus filhos, o dentro e o fora do balaio.

Sinto minha memória envelhecida com outros tempos.
Fui mesmo capaz de gerar tudo isso que lembro?
Sei que nestes corredores houve vida, houve cor.
Hoje só são meus passos e essa mobília deteriorada e sem valor.

Quero voltar à minha infância e nela recriar minha morada.
Novamente crescer e cuidar sem grandes cobranças.
Um tempo mais caloroso e um pouquinho vagaroso.
Voltar comigo, meu corpo, com carinho, os outros e as andanças.

Notas para salvar meu carnaval

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notas para carnaval

Alegorias de Carnaval (internet)

Composição do indeciso

Gostaria de fechar o meu tempo em uma caixa.
E nela colocar músicas sortidas para compor esse indeciso.
Lacrar com fitas e depois mudar o assunto.
Tenho trabalhado tanto…
Parece que lá fora deixei o mundo das ideias.
Quando mal percebo, lá se foi o meu janeiro.
O primeiro que me puxou o fevereiro e seguiu carnaval.
Astral!
Olha que na verdade estou tão carnal.
Penso que me esqueci do verbo e agora me dilacero.
Para que me esforçar nesses versos de leitura crua?
Jura que depois você volta com o meu troco?
Tropeço neste contrato absurdo e paro com o sufoco rouco.
Sou pouco.
Vou encaixar mais essa parte na sinfonia das notas.
Para a caixa, quando aberta, revelar canções desconexas.
Todas sem o tom e completamente fora do ritmo.
Mas quem sabe, neste estranhamento, seja esse o nosso tempo…