Para aqueles que coloriram dias frios

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Ilustração de Dilma Dmitriev

Poema de pétalas soltas

O que sobrou foi um pouquinho.
E eu quis deixar assim, picadinho.
Pra soltar sobre a terra fofa.
E fazer brotar raminhos, miudinhos,
Com pétalas de inspiradas flores.
Pro vento carregar e pintar mansinho
o horizonte de tantos outros amores.

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Vertigem

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Guy-Girl-Window-Shadow
A face

A esta hora você me vem visitar.
Primeiro uma sombra desgrudada.
Depois pendurada em tijolo no ar.
Vindo quieta e infinita só pra testar.

Dobrada sua mão de unhas compridas.
Pelo parapeito feito feio por fora entrar.
Sua face em minha casa traz vertigem
Trêmulo pra cair do décimo segundo andar.

Basta um vento para assim te apagar.
Devolvê-la ao escuro da vista sem luar.
Devagar, docinho e triste testemunhar.
O medo que você me é… se afastar.

Poema para apaziguar a apaixonada espera

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Como são as coisas

Calhou de você bater na porta errada.
Entre tantas outras desencontradas.
Não viu que a minha do lado estava?
Por que insistiu naquela descuidada?

Um passo a mais e você me esbarrava.
Mas quis o destino a liga equivocada
No caso, o desapego é o melhor recado.
Amor cilada se não olhar a sua estrada.

Como são as coisas, não bastam lamentos.
Vidas cruzadas em descabidos momentos.
Mas tenho fé e calma, vou esperar atento.
Daqui a pouco acerta, basta soprar o vento.

Para aqueles que caçaram nuvens

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Caçadora de Nuvens de Isabelle Dermarly

Caçadora de Nuvens de Isabelle Dermarly

Pipa

Depois que diluiu e corou,
ficou para pescar as letras.
Sobraram poucas para a pipa.
Mas preparou seu voo infinito.

Bravo pensamento de ideias singelas.
Estalam rimas em tetos de zinco.
Sem afinco ou grampos de linha.
Apenas fios tensos e muita energia.

Cabe ao vento a sua imaginação rica.
Guiá-la com emoção e rodopios vivos.
Enfrentar chuvas, nuvens e pedradas.
No sol fincar seu posto, a beleza almejada.

O poeta que desconstruiu o seu invento

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St Joseph, 1642, de Georges de La Tour

St Joseph, 1642, Georges de La Tour

Frágil poeta de ideias

Aquilo que agora escrevo e ostento.
Vem o vento e pirata o leva lento.
Derruba em meu colo texto lamacento.
Este solo de ideias carentes de alento.

Verso cru criado sonoro modorrento.
Faz dobra esta obra que mal invento.
E sobra à rima pobre do nobre intento.
Terminar como vela em cego lamento.

Poema para futucar

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Éolo

Éolo, rei dos ventos segundo a mitologia grega

Quando o vento me pergunta

Ontem, enquanto descia a estreita rua de curvas tortas,
um vento soprou minha nuca e me disse palavras gostosas.
Além delas, perguntou por que eu tanto teimava.
Respondi que era a preguiça, talvez o medo descarado.
Vento boboca, parece esquecer que em casa deixei o menino.
Que de noite muito chora e de dia apenas some.
Devo eu  trancar a porta e evitar a fuga?
Mas o menino é esperto, tudo sabe, tudo futuca.
Logo a porta se abre e de novo ele ganha as ruas.
Ôh vento! Vê se vai para lá e me deixa aqui sozinho.
Talvez seja esse o meu inevitável destino.
Andar… Andar, às vezes tropeçar e devagar sair do lugar.