Poema para a terra dos monstros

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"Where the Wild Things Are" de Maurice Sendak

“Where the Wild Things Are” de Maurice Sendak

Despedaçados

Tomei um barco para buscar o que havia de inquieto em mim.
Fugi de minha casa e deixei mamãe pra trás em pedacinhos.
Então naveguei por mares agitados além do conhecimento.
Até encalhar numa ilha adequada e do tamanho do intento.

Monstros de mandíbulas assustadoras vieram me arrastar.
Dentro da mata fechada, reencontrado em nenhum lugar.
Seres tão estranhos queriam nada mais que brincadeiras.
Gritavam tanto que o respeito da garganta eu fui buscar.

Surpresos, eles me jogaram para cima e azul conquistado.
Aproximado das nuvens, das luzes pra voltar passarinhado.
Mas quando sensibilidade teve chão, já não era divertido.
No lado esquerdo, veio-me a falta daquela despedaçada.

Não prolonguei a despedida, pois havia outras porções.
Coro de corações chovidos, abraços temidos e canções.
Simbólica volta para completar o espaço de minh’alma.
Compaixão sem medida, meu sentido de vida e a calma.

Àquele que se confundiu escultura

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Lone Fisherman statue Julie Grace

"Lone Fisherman statue" de Julie Grace

Em tempo de pedra

Na beirada do lago emerge uma pedra.
Pedra truncada com fissuras e ranhuras.
Por cima desta, a forma de um homem
encurvado na mesma cor e textura.

Homem de alma turva e confundida.
Com nós na língua e nada na barriga.
Alonga as vértebras na luz da matina
para ser lagarto em paisagem vazia.

Na ponta do anzol o peixe perseguido.
Na testa o suor salgado ainda aflito.
Alma de pedra se quebra em agito
para ganhar vida em terreno criativo.