Poema encaixado numa intercessão

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Metrô. Ilustração de Sophie Blackall

Metrô. Ilustração de Sophie Blackall

Labirinto

De um polo a outro procuro ocupar meu espaço.
Entre tantas diferenças quero ver se me encaixo.
Rostos são vírgulas em frases de sentidos abstratos.
Almas têm cor e pintam corpos de figurinos variados.

Quantos universos cabem dentro de um vagão?
Vidas são círculos e mundos estão em intercessão.
Falas são ecos e murmúrios fecham uma canção.
Canhestra, mas tão cotidiana, uma fácil imersão.

Daqui a pouco desço e sigo para meu objetivo distinto.
Posso ser acompanhado, despercebido ou até seguido.
Rumos tem curvas, mas também tem retas e libido.
Quem sabe serei dois no meio de um coletivo labirinto.

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Aquilo que minha irmã me despertou

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aniversario

Recordação

Vidas Espalhadas

Ontem minha irmã veio dizer que nossas vidas estão espalhadas.
Verdade firmada.
São frações de nós mesmos deixadas em cada canto, pedaço.
Em cidades, famílias, bairros, apartamentos, casas, estados e caixas.
A notícia veio como uma fagulha que queima e inquieta.
Na penúltima mudança uma caixa foi abandonada.
Na verdade guardada, esquecida e agora lembrada.
Engraçado que dias antes eu havia me perguntado.
Gostaria de rever aquelas fotografias de minha infância.
Risonho intuito.
A caixa foi tomada por ratos.
De Dyonélio a Cortázar.
Excrementos e ovos de outros insetos, iguais à vida,
espalhados. . .
Como podem?
Tenho medo de perguntar se isso tudo foi jogado fora.
Ouvi dizer que fotos são lavadas assim como as roupas mais sujas.
Confesso que isto muito me incomoda.
Acho que o destino privou essas lembranças de sua matéria.
Decompostas e reconstruídas apenas em memória.
Minha, de minha irmã e dos meus próximos mais próximos.